Ana Regina Bezerra Ribeiro

https://orcid.org/0000-0001-9144-7649

Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Brasil. anaregina.ribeiro@ufrpe.br

O artigo tem como objetivo analisar a trajetória histórica, os marcos normativos e as políticas educacionais que configuram o Ensino Técnico Integrado ao Ensino Médio no Brasil, com ênfase em suas implicações para a gestão educacional, os processos institucionais e a formulação de estratégias voltadas à permanência estudantil. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo, fundamentada em revisão de literatura e análise documental de legislações, diretrizes curriculares, relatórios e indicadores educacionais provenientes de órgãos oficiais, como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Ministério da Educação (MEC) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A análise permitiu compreender como a evolução das políticas públicas voltadas à integração entre formação geral e técnica tem impactado a organização dos sistemas educacionais, evidenciando desafios relacionados à gestão da oferta, à formação docente, à articulação com o mundo do trabalho e à permanência dos estudantes. Os resultados indicam que, embora reformas recentes tenham ampliado a integração curricular, persistem entraves estruturais que demandam maior capacidade de gestão orientada por dados, inovação nos processos educacionais e fortalecimento de políticas institucionais de acompanhamento e permanência. Conclui-se que o Ensino Médio Integrado representa uma estratégia relevante para a superação da fragmentação histórica do ensino brasileiro, porém sua efetividade depende do desenvolvimento de práticas de gestão educacional mais integradas, capazes de articular políticas públicas, processos institucionais e mecanismos de monitoramento que favoreçam a equidade e a sustentabilidade dos resultados educacionais.

Palavras-chave: ensino médio integrado; educação profissional e tecnológica; políticas educacionais; formação integral; permanência escolar.

 

ABSTRACT

This article aims to analyze the historical trajectory, normative frameworks, and educational policies that shape Integrated Technical and Secondary Education in Brazil, with emphasis on their implications for educational management, institutional processes, and the formulation of strategies aimed at student retention. The research adopts a qualitative, exploratory-descriptive approach, grounded in a literature review and documentary analysis of legislation, curricular guidelines, reports, and educational indicators from official institutions such as the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE), the National Institute for Educational Studies and Research Anísio Teixeira (Inep), the Ministry of Education (MEC), and the Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). The analysis made it possible to understand how the evolution of public policies aimed at integrating general and technical education has impacted the organization of educational systems, highlighting challenges related to the management of educational provision, teacher training, articulation with the world of work, and student retention. The results indicate that, although recent reforms have expanded curricular integration, structural barriers persist, demanding greater data-driven management capacity, innovation in educational processes, and the strengthening of institutional policies focused on monitoring and student retention. It is concluded that Integrated Secondary Education represents a relevant strategy for overcoming the historical fragmentation of Brazilian education; however, its effectiveness depends on the development of more integrated educational management practices capable of articulating public policies, institutional processes, and monitoring mechanisms that promote equity and the sustainability of educational outcomes.

Keywords: integrated secondary education; professional and technological education; educational policies; comprehensive education; student retention.

Tabela 1: Fluxo de seleção dos estudos da revisão de literatura

Tabela 2: Síntese dos achados da revisão de literatura e análise documental

 

3.1 Panorama histórico e marcos legais

No contexto dos marcos legais da educação brasileira, observa-se que, nas últimas décadas, políticas públicas como o FUNDEF, Pronatec, FIES, PROUNI e SISU ampliaram o acesso à educação e à formação profissional, movimento consolidado posteriormente pelo Plano Nacional de Educação (PNE) (Brasil, 2014), que estabeleceu metas voltadas à qualidade, equidade e expansão da educação profissional. Suas diretrizes priorizam a erradicação do analfabetismo, a universalização da escolarização, a valorização dos profissionais da educação, a redução das desigualdades, a gestão democrática, o respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade, além do uso eficiente dos recursos públicos.

O currículo constitui o núcleo definidor da existência da escola. A escola constitui-se historicamente como instituição quando se reconheceu a necessidade social de fazer passar um certo número de saberes de forma sistemática a um grupo ou sector dessa sociedade. Esse conjunto de saberes a fazer adquirir sistematicamente constitui o currículo da escola (Roldão & Almeida 2018, p. 9).  

O Ensino Médio enfrenta as mais elevadas taxas de abandono, reprovação e distorção idade-série entre todas as etapas da educação básica. A ideia era tornar o currículo mais flexível, permitindo que os estudantes escolhessem itinerários formativos alinhados com seus interesses e aspirações. Isso poderia tornar o ensino mais atrativo e personalizado, combatendo o desinteresse e o abandono escolar. Além disso, ao aumentar a carga horária mínima para 1.000 horas, tinha como objetivo proporcionar uma formação mais sólida e abrangente, preparando o aluno tanto para o mercado de trabalho como para o ensino superior (Muniz 2024, p. 24). 

Em 20 de dezembro de 1996 foi promulgada a segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Essa LDB dedicou o Capítulo III do seu Título VI à educação profissional. Posteriormente, esse capítulo foi denominado “Da Educação Profissional e Tecnológica” pela Lei nº 11.741/08, que incluía Seção IV-A no capítulo II, para tratar especificamente da educação profissional técnica de nível médio.

Nos sistemas estaduais de ensino a profissionalização compulsória foi amplamente problemática e não foi implantada completamente. Em primeiro lugar, porque a concepção curricular que emanava da Lei empobrecia a formação geral do estudante em favor de uma profissionalização instrumental para o “mercado de trabalho”, sob a alegação da importância da relação entre teoria e prática para a formação integral do cidadão. 

 

Na esfera educacional, a principal polêmica continuou sendo o conflito entre os que advogam por uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade para todos, independentemente da origem socioeconômica, étnica, racial etc. e os defensores da submissão dos direitos sociais em geral e, particularmente, da educação à lógica da prestação de serviços sob a argumentação da necessidade de diminuir o estado que gasta muito e não faz nada bem feito (Brasil, 2007, pág.16).  

[...] O pior é que a educação para o trabalho não esteve nem está ainda efetivamente pautada como um direito universal para os brasileiros. Esse entendimento, ainda vigente para muitos, reproduz o dualismo presente em nossa tradição nacional entre a educação para as “elites condutoras” e a “formação de mão de obra”, sendo um forte empecilho para a concretização do mandamento constitucional, que entende claramente a abrangência da educação profissional sob a óptica dos direitos universais à educação e ao trabalho (Cordão & Moraes, 2017, pág.32).  

A Resolução CNE/CEB nº 1, de 5 de janeiro de 2021, que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Profissional e Tecnológica (Brasil, 2021), representa um marco na consolidação dessa modalidade de ensino no Brasil. A norma reforça o papel da EPT na integração entre educação, trabalho, ciência e tecnologia, orientando itinerários formativos voltados às demandas do setor produtivo e da sociedade. Também propõe um currículo centrado no estudante e na formação integral, que articula competências técnicas e socioemocionais, valorizando a inovação, a interdisciplinaridade e a relação entre teoria e prática.

A análise desenvolvida neste estudo permite ampliar a compreensão do Ensino Médio Integrado (EMI) para além de sua caracterização normativa ou pedagógica, evidenciando-o como um campo estruturado por três dimensões interdependentes: a concepção curricular de integração, os marcos regulatórios que orientam sua implementação e os condicionantes estruturais que limitam sua efetivação. Essa sistematização constitui uma das principais contribuições do estudo, ao oferecer um referencial analítico que permite compreender o EMI não apenas como proposta educacional, mas como arranjo institucional marcado por disputas conceituais, capacidades de gestão e desigualdades socioeconômicas.

Os resultados indicam que, embora o EMI represente um avanço relevante no enfrentamento da dualidade histórica entre formação geral e técnica, sua consolidação não depende exclusivamente do desenho curricular ou da ampliação da oferta. Ao contrário, evidencia-se que os principais entraves à sua efetivação estão associados à insuficiência de políticas de permanência, à fragilidade da formação docente e aos desafios institucionais para implementação de modelos integrados em contextos marcados por desigualdades estruturais. Nesse sentido, o estudo contribui ao demonstrar que a integração curricular, de forma isolada, não é suficiente para garantir trajetórias educacionais mais equitativas.

A partir dessa análise, sustenta-se que o EMI deve ser compreendido como uma estratégia cuja efetividade está diretamente relacionada à capacidade de articulação entre políticas públicas, gestão educacional e mecanismos de monitoramento e permanência estudantil. Essa perspectiva amplia o debate presente na literatura, ao deslocar o foco da discussão da dimensão estritamente pedagógica para a dimensão sistêmica e organizacional da política educacional.

Por fim, o estudo aponta como agenda de pesquisa a necessidade de investigações empíricas que analisem a implementação do EMI em contextos específicos, com ênfase em estratégias de gestão orientada por dados, práticas institucionais de permanência e mecanismos de redução das desigualdades. Tais abordagens podem contribuir para consolidar o EMI não apenas como proposta normativa, mas como política efetiva de promoção da equidade educacional no Brasil.

 

 

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