RESENHA CRÍTICA
Júlio César Amorim Castro [1]
https://doi.org/10.22279/navus.v18.2242
1 REFERÊNCIA
WATKINS,
Michael D. As seis disciplinas do pensamento estratégico:
um guia para a liderança do futuro. São Paulo: Objetiva, 2024.
2 CREDENCIAIS DO AUTOR
Michael Watkins é
professor da disciplina de liderança e mudança organizacional na prestigiosa
escola de negócios IMD, na Suíça. É especialista em transições de liderança de
ensino-produto e autor do best-seller mundial "Os primeiros 90 dias:
estratégias comprovadas para acelerar e melhorar seu desempenho”. É PhD em
ciência da tomada de decisão pela Universidade Harvard. Foi incluído na lista
dos 100 Melhores Livros de Negócios de Todos os Tempos (2016) da 800-CEO-Read.
Foi selecionado para a lista da Amazon dos 100 livros sobre liderança e sucesso
para ler ao longo da vida.
Recebeu o prêmio
Kulp-Wright da Associação Americana de Riscos e Seguros (2006), assim como o
prêmio strategy+business de melhor
livro de negócios (2004). Além disso, foi premiado pelo Instituto CPR como
melhor livro na área de negociação (2001, 2003). Em 2023, foi considerado uma
influência na área de gestão pelo Thinkers50, que reconhece contribuições
notáveis para o campo da gestão ao longo de muitos anos.
3 RESUMO
O texto aborda o livro "As seis disciplinas do pensamento
estratégico: um guia para a liderança do futuro" (2024), de Michael
Watkins. A obra apresenta, com base em entrevistas com mais de cinquenta
executivos e estudos que o autor realiza há trinta anos, as principais
disciplinas mentais que sustentam o pensamento estratégico. Essas disciplinas
são fundamentais para gestores que enfrentam ambientes complexos, incertos,
ambíguos e voláteis. O autor enfatiza a importância da integração entre o
pensamento estratégico, crítico e criativo, além da colaboração harmoniosa com
a inteligência artificial na tomada de decisões.
O livro detalha seis disciplinas essenciais: 1) reconhecimento de padrões
em contextos complexos; 2) análise de sistemas para decompor e compreender a
complexidade organizacional; 3) agilidade mental para antecipar e repensar
continuamente soluções; 4) resolução estruturada de problemas por meio de
processos iterativos de decisão; 5) visionarismo, que motiva equipes com metas
claras e propósito; e 6) astúcia política para gerir pessoas e culturas
organizacionais, promovendo alianças e negociações eficazes.
Watkins destaca que o pensamento estratégico é um exercício contínuo e
coletivo, sustentado pelo conhecimento, pela experiência e pela prática,
reforçando a análise de dados e o networking como pilares essenciais. A obra é
recomendada para profissionais de gestão e integrantes da alta cúpula,
professores e estudantes de pós-graduação em administração, enfatizando que,
apesar das tecnologias digitais, o pensamento crítico e estratégico continua
insubstituível para a sustentabilidade dos negócios.
4 APRECIAÇÃO CRÍTICA DO RESENHISTA
O livro “As seis disciplinas do pensamento
estratégico: um guia para a liderança do futuro” foi lançado em 2024 e se
destaca como uma das mais recentes contribuições ao tema do pensamento
estratégico. O autor, Michael Watkins, mundialmente conhecido por “Os primeiros
90 dias” - obra de referência para jovens profissionais em ascensão na
carreira, assim como para disciplinas de gestão de pessoas e liderança -,
baseia-se em pesquisas e experiências que formam suas convicções para
apresentar as disciplinas mentais que permitem aos gestores reconhecerem
oportunidades, atentarem às dificuldades e priorizarem as questões importantes
da estratégia dos negócios.
Na introdução, Watkins define alguns conceitos e
constatações, como a necessidade de uma relação simbiótica entre a tomada de
decisão e a inteligência artificial (IA), considerando que estratégia significa
um olhar além do presente, com reflexão crítica sobre diferentes cenários. A
criação do pensamento estratégico deve ocorrer de forma harmônica e
colaborativa, integrando o pensamento crítico, criativo e analítico, juntamente
com metodologias modernas, como o design thinking.
O autor descreve, de forma categórica, que os
pensadores estratégicos são hábeis em lidar com complexidades, ao mesmo tempo
que reduzem incertezas e respondem rapidamente às ameaças, concentrando-se em
oportunidades. A análise e o pensamento competitivo são dedutivos e analíticos,
enquanto o pensamento estratégico é indutivo, relacionado à síntese. Assim como
os processos de análise competitiva, os processos organizacionais são
tipicamente coletivos. Watkins apresenta a seguinte equação para definir sua
capacidade de pensamento estratégico: CPE = domínio + experiência + exercício.
Os capítulos são divididos conforme as diferentes disciplinas.
A primeira é o reconhecimento de padrões, ou seja, a
capacidade de analisar ambientes em negócios complexos, incertos, voláteis e
ambíguos (CUVA). Para que esse reconhecimento seja eficaz, são necessárias
mobilização, priorização e análise do mercado, a fim de que as ameaças e
oportunidades emergentes sejam analisadas. Nesse momento, Watkins deixa claro
que os estrategistas processam imensas quantidades de informações para fazer
seus julgamentos. Portanto, a criação de cenários é muito importante. A análise
de dados é fundamental.
O capítulo seguinte trata da análise de sistemas,
definida como a capacidade de converter situações complexas em sistemas por
meio de modelos mentais. A elaboração de cenários é uma das ferramentas dos
estrategistas que podem ser usadas nesse contexto. Analisar sistemas consiste
em: 1) decompor a complexidade; 2) compreender a complexidade; e 3) usar essas
informações para analisar relações de causa e efeito e decidir com efetividade.
O autor utiliza uma adaptação do modelo estrela de Galbraith, que consiste em
compreender a cultura por meio de: 1) direção estratégica; 2) processos e
sistemas; 3) métricas e recompensas; 4) pessoas e capacidades; e 5) estrutura
de tomada de decisões.
O terceiro capítulo aborda a disciplina de agilidade
mental, definida como a capacidade de examinar as dificuldades dos negócios,
empregando diferentes análises antecipativas. Ter habilidade em agilidade
mental significa ser capaz de repensar continuamente os melhores e mais
adequados meios para o avanço das organizações diante da CUVA. Criar diversas
análises, aprofundando os problemas e entendendo-os como um todo, é uma das
maiores habilidades dos estrategistas. Esse exercício exige tempo, experiência
e conhecimento para a elaboração de cenários.
A disciplina de resolução estruturada de problemas é
abordada em seguida. Watkins menciona importantes escritores clássicos de
gestão ao apresentar as etapas de tomada de decisão, mas também apresenta seu
próprio modelo, dividido entre estrutura e criatividade. A última instância da
estratégia - a decisão e sua análise constante - pode ser entendida como um
processo de aprendizado para toda a organização. Assim, as etapas são: 1)
definir as funções e comunicar o processo; 2) enquadrar os problemas; 3)
investigar as soluções potenciais; 4) decidir quais são as melhores alternativas;
e 5) comprometer-se com o que foi acordado. Essas etapas são consideradas um
sistema iterativo que subsidia os executivos na tomada de decisões eficientes,
uma das funções dos estrategistas.
O penúltimo capítulo trata do visionarismo, definido
como a habilidade de imaginar futuros ambiciosos e exequíveis para motivar os
colaboradores, com o intuito de concretizar os planos estabelecidos — metas e
objetivos. Oferecer visão, missão e valores às pessoas é essencial para que
todos se esforcem e saibam o que podem e devem fazer. Oferecer propósito de
trabalho, assim como trabalhar a motivação, são responsabilidades que os
estrategistas jamais devem desconsiderar. O autor enfatiza que a confiança, a integridade
e a legitimação surgem à medida que os objetivos e as metas são alcançados,
assim como as recompensas bem distribuídas constituem um fator crítico de
sucesso para gerar resultados positivos.
A última disciplina aborda a astúcia política,
elemento muito importante no pensamento estratégico, visto que permite aos
estrategistas gerenciar o ambiente de trabalho diante dos recursos, das pessoas
e de toda a sua cultura. Desenvolver a motivação e sustentar alianças são
responsabilidades que devem ser exercidas para que, na negociação, haja uma
relação ganha-ganha e para que as necessidades e os desejos alheios possam ser
equilibrados e harmonizados com os próprios. Gerar alternativas, dialogar, ouvir,
falar e buscar o entendimento fazem parte do trabalho em equipe, que sempre
estará presente no cotidiano dos estrategistas.
A conclusão da obra é intitulada “Desenvolvendo sua
capacidade de pensamento estratégico”. Nesse momento, o autor dá atenção ao
networking e ao trabalho, ao desenvolvimento e à capacidade da equipe, pilares
para a elaboração das estratégias nos tempos atuais. O ciclo de reconhecimento,
priorização e mobilização (RPM) é algo a ser buscado, ainda mais diante da
crescente importância dos dados e de sua análise. Seu uso é fundamental para a
construção de estratégias fundamentadas em fatos.
As seis disciplinas do pensamento estratégico: um guia
para a liderança do futuro cumpre seu papel de apresentar as disciplinas que
compõem os diversos tipos de pensamento, nesse caso, o pensamento estratégico.
É um livro que merece ser conhecido no meio acadêmico e entre os estrategistas
do Brasil. É uma leitura recomendada para professores e alunos de cursos de
pós-graduação em gestão de negócios (mestrados e doutorados), assim como para
executivos de nível estratégico e membros de conselhos, inclusive aqueles que
ocupam posições de CEO e Chairman.
Não haveria necessidade de praticar o pensamento
estratégico se o mundo fosse estável, previsível e linear. Diante da
instabilidade geopolítica e internacional na qual os negócios estão inseridos,
desenvolver as disciplinas para alcançar o pensamento estratégico é de suma
importância para a administração das empresas e das instituições públicas, bem
como para a sustentabilidade e o crescimento operacional dos negócios. Nossos
executivos precisam dominar o pensamento estratégico.
Um ponto positivo é que, ao final dos capítulos,
Michael Watkins exibe um checklist com perguntas que fazem os leitores
refletirem e se sentirem motivados a agir diante do que está sendo estudado.
São divulgadas, ainda, referências bibliográficas em cada disciplina, de modo
que o leitor pode se aprofundar nos temas expostos. A obra também apresenta
diversas figuras que facilitam a compreensão dos temas. Sua experiência como
docente, aliada à titulação de Ph.D. em ciência da decisão pela Harvard
University, confere-lhe autoridade para sintetizar e apresentar afirmações
sobre o que considerar, estudar e analisar em relação à elaboração de
estratégias, considerando não apenas a realidade dos Estados Unidos, mas também
a do Brasil.
Um dos fatores limitantes deste livro foi a falta de
correlação com escritores da chamada “escola clássica da estratégia”, como
Ansoff, Mintzberg, Porter, Norton e Kaplan. Essa correlação tornaria a obra
mais interessante sob o ponto de vista acadêmico. Um exemplo seria a discussão
sobre os mapas estratégicos de Norton e Kaplan, que poderiam ser discutidos
diante da atual realidade das empresas. Os modelos ainda são condizentes com a
realidade dos mercados? Passariam por reformulações ou apenas descrevem uma
realidade temporal que não existe mais? Quais comportamentos (soft skills) e
aptidões técnicas (hard skills) são necessários para que os gestores do século
XXI se desenvolvam e ajudem outros a adquirir essas competências?
Essas correlações e indagações poderiam vir
acompanhadas de diversas análises sobre o presente e o futuro das empresas no
aspecto estratégico. Entretanto, parece que Watkins quis dar ênfase a novos
modelos, e o fez com maestria ao apresentar conceitos modernos e aplicáveis a
empresas que atuam em diversos mercados, países e setores em diferentes
estágios de crescimento.
Ao final, a mensagem que fica é a de que as
tecnologias digitais, por mais modernas que sejam, não substituirão o
pensamento crítico nem a necessidade do pensamento estratégico para a gestão do
século XXI. Os líderes devem trabalhar de forma harmoniosa e coletiva em
conjunto com a IA, considerando que as estratégias têm caráter descritivo, e
não prescritivo, no contexto das organizações. A estratégia continua sendo uma
disciplina e uma fonte essencial de estudos para a competitividade dos negócios
e a prosperidade da sociedade, seja no caso de empresas nascentes, seja no de
empresas que pretendem se internacionalizar e/ou expandir suas operações para
novos mercados regionais.
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