Implementation of a Computerized Sepsis
Protocol in a Highly Complex Public Hospital: Experience Report
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https://orcid.org/0000-0002-1962-7466 |
Mestre em Enfermagem. Universidade Regional
do Cariri (URCA) – Brasil. rayanealencar@hotmail.com |
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Luis
Eduardo Santiago Holanda https://orcid.org/0009-0009-2936-8662 |
Graduando
em Enfermagem. Universidade Regional do Cariri (URCA) – Brasil. eduardo.holanda@urca.br |
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Enathanael
Ribeiro Soares https://orcid.org/0009-0007-3234-8270 |
Mestrando
em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) – Brasil. enathanael.ribeiro@gmail.com |
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Joel
Freires de Alencar Arrais https://orcid.org/0000-0002-5127-5309 |
Mestrando
em Saúde e Sociedade. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UFRN) –
Brasil. joel.freires00@gmail.com |
|
Pedro
Paulo Rodrigues https://orcid.org/0000-0001-7026-0092 |
Mestrando
em Saúde Pública. Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) – Brasil.
pedro_roes@outlook.com |
RESUMO
Este artigo teve como objetivo relatar a experiência de implantação de
um protocolo sepse informatizado em um hospital público de alta complexidade do
interior do Ceará. Foi realizada uma análise situacional do protocolo anterior,
em formato impresso, que apresentava baixa adesão e falhas na comunicação entre
as equipes. A partir dessa avaliação, desenvolveu-se um formulário eletrônico
integrado a sinalizações automáticas e cronômetros, disponibilizado em setores estratégicos.
A metodologia incluiu treinamentos presenciais, materiais digitais de apoio e
estratégias de engajamento multiprofissional, com destaque para a atuação das
enfermeiras guardiãs do protocolo, responsáveis por monitorar a adesão e
reforçar a importância das condutas. Como resultados, verificou-se um aumento
expressivo na abertura de protocolos de suspeita de sepse, maior precocidade na
detecção dos casos e integração mais efetiva das equipes assistenciais na
execução das medidas recomendadas. Apesar da resistência inicial de alguns
profissionais e de dificuldades operacionais no registro eletrônico,
intervenções educativas e suporte contínuo favoreceram a superação desses
desafios. Conclui-se que a integração entre tecnologia digital, capacitação
profissional e gestão participativa fortalece a padronização do cuidado,
promove a cultura de segurança do paciente e contribui significativamente para
a melhoria da resposta hospitalar frente à sepse.
Palavras-chave: protocolos clínicos;
tecnologia em saúde; segurança do paciente; gestão hospitalar.
ABSTRACT
This article reports on the implementation of a
computerized sepsis protocol in a highly complex public hospital in the
interior of Ceará. A situational analysis was conducted of the previous
protocol, which was in printed format and presented low adherence and
communication gaps among teams. Based on this assessment, an electronic form
integrated with automatic signaling and timers was developed and made available
in strategic areas. The methodology included in-person training, digital
support materials, and multidisciplinary engagement strategies, with a focus on
the role of protocol guardian nurses, responsible for monitoring adherence and
reinforcing the importance of the procedures. The results demonstrated a
significant increase in the opening of suspected sepsis protocols, earlier case
detection, and more effective integration of care teams in implementing the
recommended measures. Despite initial resistance from some professionals and
operational difficulties with the electronic record, educational interventions
and ongoing support helped overcome these challenges. It is concluded that the
integration of digital technology, professional training, and participatory
management strengthens the standardization of care, promotes a culture of
patient safety, and significantly contributes to improving hospital responses
to sepsis.
Keywords: sepsis; clinical protocols; health technology;
patient safety; hospital management.
Recebido em 09/09/2025. Aprovado em 25/10/2025. Avaliado pelo sistema double blind peer review. Publicado conforme normas da ABNT.
https://doi.org/10.22279/navus.v18.2204
1 INTRODUÇÃO
A sepse é entendida como uma condição clínica grave, na qual a resposta do organismo a uma infecção torna-se descontrolada, provocando alterações que podem levar à falência de órgãos e colocar a vida em risco. Esse agravo constitui uma das principais causas de internação em unidades de urgência, emergência e terapia intensiva, apresentando alta morbimortalidade e implicações assistenciais significativas em todo o mundo (Almeida et al., 2022; Dantas; Figueiredo, 2023).
Dados do Global Burden of Disease Study demonstram que, em 2017, ocorreram cerca de 48,9 milhões de casos de sepse e 11 milhões de mortes associadas, o que corresponde a aproximadamente 19,7% de todas as mortes globais naquele ano. A maioria dos casos foi registrada em países de baixa e média renda, como o Brasil, desta forma, a sepse permanece como uma das causas fundamentais para morbimortalidade em nível global, configurando-se como um desafio persistente para sistemas de saúde em diferentes contextos (Rudd et al., 2020).
A pandemia de COVID-19 reacendeu o debate sobre sepse viral respiratória, destacando a importância de abordagens mais sistemáticas e rápidas para seu diagnóstico e tratamento. O impacto da COVID-19 sobre os indicadores de sepse é evidente, segundo Wang et al. (2022), a pandemia resultou em aproximadamente 18,2 milhões de mortes em excesso entre 2020 e 2021, muitas delas ligadas a quadros de sepse secundária à infecção pelo SARS-CoV-2. Como observa Vincent (2021), a COVID-19 evidenciou o quão negligenciada a sepse ainda é no planejamento de políticas públicas, mesmo diante de sua elevada letalidade.
Do ponto de vista epidemiológico, a sepse já ultrapassou doenças cardiovasculares e câncer como uma das principais causas de morte em alguns contextos hospitalares (Organização Mundial da Saúde, 2024; CDC, 2024). No entanto, as estratégias de detecção precoce continuam dependentes de ferramentas cuja acurácia ainda é alvo de debate. Segundo Wang et al. (2022), a acurácia preditiva de escores clínicos como qSOFA, SIRS e NEWS é moderada, sendo influenciada por variáveis contextuais, como a experiência clínica da equipe e a estrutura institucional disponível.
A elevada carga associada à sepse é agravada por fatores como a dificuldade no reconhecimento precoce, falhas nos fluxos assistenciais e na administração oportuna de antibióticos. A literatura reforça que o atraso na antibioticoterapia está diretamente associado ao aumento da mortalidade (Siewers et al., 2021; Tang et al., 2024). Nesse sentido, a padronização de condutas por meio de protocolos, aliada à incorporação de tecnologias digitais, tem sido apontada como estratégia promissora para mitigar esses desfechos negativos.
Assim, a incorporação de protocolos informatizados surge como uma inovação com potencial de reverter falhas estruturais na resposta hospitalar à sepse. Santos et al. (2023) evidenciam que o uso de tecnologias digitais nas práticas de equipes multiprofissionais tem potencial para apoiar a comunicação em tempo real e ampliar a vigilância em saúde. Segundo os autores, a tecnologia pode contribuir para maior resolutividade, desde que seja implementada de forma planejada e contextualizada, respeitando as especificidades dos territórios e a capacidade de uso das equipes envolvidas.
Nesse cenário, a transformação digital vem remodelando a prestação dos serviços, ampliando a integração de dados, permitindo maior monitoramento das condições clínicas e favorecendo a coordenação do cuidado (Rodrigues et al., 2025). Ressalta-se que a detecção precoce e o início imediato do tratamento são os pilares para alterar positivamente o prognóstico, especialmente em casos de sepse viral. Além disso, Gu et al. (2020) destacam a necessidade de estratégias que articulem dados clínicos com sistemas de alerta automatizados.
A Surviving Sepsis Campaign (2021) recomenda a adoção de bundles assistenciais com ações a serem realizadas preferencialmente na primeira hora de reconhecimento da sepse, incluindo coleta de exames como lactato e culturas, administração de antibióticos de amplo espectro, ressuscitação volêmica com cristaloides e uso precoce de vasopressores quando necessário (Evans et al., 2021).
Para viabilizar essas ações, a literatura aponta a importância de protocolos institucionais, treinamento de equipes e uso de ferramentas digitais para monitoramento em tempo real (Antunes et al., 2021). Esses elementos dialogam diretamente com iniciativas como a implantação digitais de protocolos de sepse, cujo objetivo é apoiar a equipe na detecção precoce e no tratamento imediato, contribuindo para a melhoria dos desfechos assistenciais.
Ao aproximar esses achados do contexto hospitalar e do enfrentamento da sepse, torna-se evidente que as ferramentas digitais podem desempenhar papel central na padronização do cuidado, especialmente por meio de protocolos informatizados (Gu et al., 2020; Santos et al., 2023).
Desta forma, objetiva-se relatar a experiência de implantação de protocolo sepse informatizado em um hospital público de alta complexidade do interior do Ceará, Brasil, destacando as estratégias adotadas, principais resultados alcançados e desafios nos três primeiros meses de implementação.
2 MÉTODO
Estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido a partir da implantação do protocolo sepse informatizado em um hospital público de alta complexidade, localizado no interior do estado do Ceará, no ano de 2024. A unidade hospitalar conta com aproximadamente 130 leitos e atende pacientes adultos em áreas como clínica médica, clínica cirúrgica, clínica traumatológica, centro cirúrgico, Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e setores de imagem.
A iniciativa foi planejada e executada por um Comitê da Sepse, composto por 20 profissionais de múltiplas áreas: coordenação médica e de enfermagem dos setores, Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), farmácia, laboratório, imagem, engenharia clínica, manutenção, Tecnologia da Informação (TI), Núcleo de Apoio ao Cliente (NAC), agência transfusional, nutrição, núcleo de segurança do paciente, núcleo de epidemiologia e centro de estudos. O comitê, liderado pela diretora clínica do hospital, reuniu-se quinzenalmente durante todo o processo, com reuniões de aproximadamente duas horas de duração.
A coleta de dados
foi realizada pelos membros do comitê, com base em registros no dashboard
institucional, atas de reuniões, relatórios com registros fotográficos e
análise qualitativa de falas obtidas durante reuniões e devolutivas com as
equipes. As análises foram de natureza descritiva e interpretativa, sem
aplicação de testes estatísticos inferenciais, dado o caráter do relato de
experiência.
3 RESULTADOS
A primeira etapa do processo consistiu na
análise situacional da adesão ao protocolo de sepse vigente, que até então era
baseado em formulário impresso e treinamentos teóricos. Observou-se baixa
adesão, registros incompletos e falta de comunicação entre os setores, o que
motivou a reestruturação do processo. Com isso, foi desenvolvido um formulário
eletrônico na plataforma Microsoft Forms, acionado pelos profissionais
nos setores assistenciais.
Esse acionamento gerava sinalização
automática em monitores nos setores estratégicos (farmácia, laboratório, NAC,
TI e engenharia clínica), incluindo o nome do paciente, setor de origem, além
de cronômetros regressivos com base nos tempos críticos do bundle de
sepse.
Posteriormente foram realizados 28
treinamentos in loco em diferentes setores assistenciais e de apoio, envolvendo
cerca de 160 profissionais. Um vídeo explicativo foi gravado por membros do
comitê e disponibilizado via QR Code na plataforma Classroom,
favorecendo o acesso assíncrono ao conteúdo. Além disso, foi realizada uma
Blitz da Sepse em todas as portas de entrada do hospital, durante dois dias
consecutivos, nos turnos manhã, tarde e noite, com participação de
aproximadamente 200 profissionais.
Durante a implementação, foram empregadas
estratégias adicionais de engajamento, como a nomeação de enfermeiras diaristas
como “guardião do protocolo” em cada setor, utilização de gincanas, jogos
educativos e personalização dos computadores com temas visuais alusivos à
sepse. A gestão à vista também foi adotada pelas coordenações, com atualização
mensal dos indicadores do protocolo nos setores.
Nos três primeiros meses após a implantação
do protocolo informatizado, observou-se um aumento expressivo na abertura de
protocolos de suspeita de sepse. Enquanto no modelo anterior (papel) cada setor
registrava, em média, 3 a 4 aberturas mensais, após a implantação
informatizada, esse número chegou a 18 em alguns setores, com todos
apresentando pelo menos 12 aberturas mensais.
O protagonismo da equipe de enfermagem foi
um diferencial da experiência, com atuação em todas as etapas: planejamento,
capacitação, execução e acompanhamento. A presença de lideranças locais
(enfermeiras diaristas) como guardiãs do protocolo favoreceu a adesão diária e
o esclarecimento de dúvidas in loco.
A incorporação de elementos lúdicos e visuais, como jogos e layout temático nos computadores,
contribuiu para o engajamento das equipes e para a cultura organizacional
voltada à segurança do paciente.
Além do aumento quantitativo, foi
identificada uma mudança qualitativa relevante: as aberturas passaram a ocorrer
de forma mais precoce, muitas vezes durante o estágio inicial de infecção,
antes mesmo do aparecimento de disfunção orgânica, como preconiza a literatura.
Essa precocidade possibilitou intervenções terapêuticas mais rápidas,
especialmente na coleta de hemoculturas, administração do antibiótico empírico
e reposição volêmica.
Outro aspecto relevante foi o envolvimento
de diversas categorias profissionais e setores em prol do mesmo objetivo. As
equipes dedicaram-se a realizar avaliações contínuas dos seus processos, em
busca de atingir os tempos pactuados no protocolo, bem como compreender os
desafios e fragilidades presentes, elaborando planos de ações quinzenais e
revisitando metas estipuladas em reuniões. Esses ajustes garantiram que o
protocolo fosse sempre revisto objetivando sua aplicabilidade à prática
assistencial.
Quanto aos desafios, as equipes relataram
inicialmente dificuldades operacionais, principalmente relacionadas ao
esquecimento em registrar a checagem das ações realizadas no formulário, o que
gerava distorções nos tempos monitorados. Esses eventos foram acompanhados
pelos gestores, que avaliaram os fatores envolvidos e elaboraram intervenções
direcionadas às necessidades dos profissionais.
Além disso, constatou-se em alguns setores
da instituição resistência inicial por parte de alguns profissionais a mudanças
de fluxo assistencial, principalmente devido déficit de capacitação específica
para manusear formulários eletrônicos. Como intervenção, foram realizados
treinamentos individuais e disponibilizados vídeos on-line e infográficos
elaborados pelos componentes do comitê da sepse.
Após um mês, foram feitas novas abordagens
aos setores e profissionais, buscando identificar a persistência dos desafios,
no entanto, as equipes demonstraram adaptação e relataram maior segurança e
fluidez no processo.
Destaca-se que em cada encontro dos membros
do comitê, cada gestor de área apresentava como o processo estava ocorrendo,
suas dificuldades, experiências e estratégias utilizadas em situações
relevantes, o que permitiu compartilhamento de informações e aprendizagem
mútua, visando uma construção coletiva pautada na qualidade e segurança do
paciente.
4 DISCUSSÃO
Os achados desta experiência reforçam a
literatura que aponta que a combinação entre tecnologia, educação continuada e
estratégias de engajamento multiprofissional contribui para uma melhor resposta
institucional frente à sepse.
A experiência relatada em estudos nacionais
fornece subsídios importantes para o processo de implantação de protocolos
digitais em hospitais públicos. Evidências recentes reforçam que a adoção de
protocolos clínicos tem potencial para melhorar a adesão a condutas essenciais,
reduzir o tempo de internação e diminuir a mortalidade por sepse (Borguezam et
al., 2021; Souza et al., 2022).
O reconhecimento precoce do quadro séptico é
uma das dimensões mais relevantes e desafiadoras no contexto hospitalar. A
literatura mostra que atrasos na identificação comprometem diretamente os
desfechos, elevando mortalidade e prolongando a internação (Dantas; Figueiredo,
2023; Almeida et al., 2022). Por esse motivo, protocolos digitais podem
representar um ganho importante ao sinalizar de forma imediata alterações nos
parâmetros clínicos registrados pelos profissionais de saúde.
A fase de implementação, entretanto, exige
planejamento cuidadoso. Estudos prévios demonstram que a adesão aos protocolos
depende não apenas da estrutura tecnológica, mas também do treinamento das
equipes, da definição clara de responsabilidades e do acompanhamento ativo de indicadores
por profissionais designados (Borguezam et al., 2021; Souza et al., 2022).
A experiência brasileira tem mostrado que
mudanças desse tipo encontram barreiras relacionadas à cultura organizacional,
resistência inicial de parte da equipe e dificuldades logísticas em hospitais
com alta demanda e recursos limitados. Apesar das dificuldades, os resultados
favoráveis, em especial no tocante à redução das taxas de mortalidade,
evidenciam a importância de persistir na superação dessas barreiras (Borguezam et
al., 2021).
A interdisciplinaridade é outro elemento
central para o cuidado ao paciente séptico. De acordo com Taques et al.
(2025), o trabalho em equipe envolvendo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e
outros profissionais permite uma abordagem mais abrangente, tanto na fase aguda
quanto na reabilitação desses pacientes. Portanto, a implantação de protocolos
digitais deve considerar essa dimensão integradora, que é essencial para a
resposta coordenada aos casos de sepse.
Além disso, experiências documentadas
durante a pandemia de COVID-19 mostraram que pacientes com evolução para sepse
apresentaram diagnósticos de enfermagem complexos, exigindo registros
sistematizados, agilidade na identificação das alterações clínicas e rapidez na
tomada de decisão (Silva et al., 2021). Esse cenário reforça o papel da
tecnologia digital como suporte ao processo de cuidado.
Nesse contexto, a utilização de sistemas
digitais aparece como uma possibilidade de ampliar e sistematizar os resultados
alcançados. Ao estruturar fluxos de trabalho em plataformas informatizadas, é
possível integrar alertas automáticos e padronizar a tomada de decisão clínica
em tempo real, sobretudo em instituições que atendem grande volume de
pacientes.
Estudo recente sobre a mortalidade por sepse
no Brasil evidenciou a magnitude desse agravo. A análise conduzida por Almeida et
al. (2022) identificou, no período de 2010 a 2019, mais de um milhão de
casos hospitalares, com coeficiente médio de prevalência de 51,3 por 100.000
habitantes. Nesse mesmo período foram registradas 463 mil mortes atribuíveis à
sepse, resultando em um coeficiente de mortalidade de 22,8 por 100.000
habitantes. O estudo aponta ainda que as maiores taxas ocorreram em indivíduos
idosos, sobretudo acima de 60 anos, em pessoas autodeclaradas pardas, e com
maior concentração dos óbitos na região Sudeste, seguida pela região Sul do
país.
Em um estudo de âmbito nacional, Dantas e
Figueiredo (2023) também ressaltam a alta incidência e os elevados índices de
morbidade e mortalidade da sepse em hospitais brasileiros, chamando atenção
para fatores relacionados à resposta inflamatória exacerbada, diagnóstico
tardio e ausência de fluxos assistenciais estruturados como elementos
determinantes para o agravamento dos casos.
Análises mais recentes, focadas em um
recorte estadual, apontam que a incidência e mortalidade mantêm tendência
crescente. Pesquisa conduzida no estado de São Paulo, entre 2013 e 2022,
reforça a ampliação do número absoluto de casos, associada à persistência de
taxas expressivas de mortalidade (Dourado et al., 2024). Esses achados
corroboram a necessidade de estratégias organizadas de resposta e de protocolos
institucionais voltados para a detecção precoce e o tratamento oportuno.
O protocolo implantado baseia-se em
critérios clínicos e laboratoriais consistentes com os bundles da Surviving
Sepsis Campaign (Evans et al., 2021), incluindo metas temporais de 1
a 6 horas e acompanhamento de reavaliações clínicas em diferentes momentos. A
utilização de cronômetros e dashboards em tempo real permitiu maior
rastreabilidade, integração entre setores e capacidade gerencial para monitorar
indicadores e realizar intervenções corretivas.
Estudos prévios apontam que a integração de
sistemas de alerta eletrônico com treinamentos presenciais aumenta a adesão às
melhores práticas e reduz tempos críticos no manejo da sepse (Westphal et
al., 2018; Rhee et al., 2017). A experiência do hospital em análise
se alinha a essas evidências, com diferenciais importantes como a forte
participação da enfermagem, a utilização de recursos acessíveis (Forms
Microsoft e infraestrutura interna de TI) e o investimento em cultura
organizacional, evidenciado pela gestão à vista e comunicação visual temática.
A relevância dos protocolos no tratamento da
sepse em hospitais públicos é confirmada em um estudo de Borguezam et al.
(2021), que avaliou os efeitos da implantação de um protocolo clínico
gerenciado na qualidade do cuidado. Os autores observaram que, após a
implantação, houve aumento significativo da adesão aos indicadores de qualidade
assistencial, com destaque para a maior frequência de coleta de lactato,
realização de hemoculturas e início precoce da antibioticoterapia. A análise
estatística demonstrou que os pacientes passaram a ter 14 vezes mais chances de
receber o tratamento recomendado quando submetidos ao fluxo padronizado do
protocolo, garantindo uma redução significativa na mortalidade.
Achados próximos a esses também foram
observados por Souza et al. (2022), que analisaram intervenções voltadas
para a melhoria da qualidade da assistência ao paciente séptico em serviços de
emergência. Nesse estudo, práticas padronizadas e monitoramento constante da
equipe levaram à redução de falhas no manejo inicial e ao aumento na
conformidade com as medidas recomendadas para as primeiras horas de
atendimento.
Ainda que não tenham sido avaliados
desfechos clínicos como mortalidade ou tempo de internação, o relato evidencia
ganhos assistenciais e sistêmicos com potencial impacto na qualidade e
segurança do paciente. A triplicação no número de protocolos abertos e a
antecipação na identificação de casos sugerem que a adoção de ferramentas
digitais pode atuar como catalisadora na padronização e agilidade do cuidado.
Outro ponto relevante se refere ao custo
associado à sepse. Um estudo conduzido por Luijks et al. (2024) na
Holanda estimou que os custos sociais da sepse, considerando hospitalização,
reabilitação e perda de produtividade, são expressivos e superam os de outras
condições críticas. No Brasil, embora ainda haja escassez de dados nacionais
atualizados com metodologia robusta, estudos anteriores já sinalizam que a
sepse está entre os principais motivos de reinternação precoce não planejada, o
que eleva ainda mais seu impacto econômico (Mayr et al., 2017).
Mesmo após a alta hospitalar, os pacientes
sobreviventes enfrentam sequelas físicas, cognitivas e emocionais que os
inserem em um ciclo de vulnerabilidade clínica. Soussi et al. (2022),
por meio da análise de uma coorte europeia, identificaram subtipos de
sobreviventes de sepse com trajetórias clínicas bastante distintas ao longo de
um ano, variando desde recuperação plena até declínio progressivo. Esse dado
reforça a necessidade de estratégias que transcendam a fase aguda da sepse e se
articulem com a linha do cuidado contínuo.
A experiência vivenciada revelou que, embora
o protocolo tenha sido bem acolhido por parte da equipe médica e de enfermagem,
sua adesão plena foi limitada por fatores como déficit de capacitação
específica, limitações tecnológicas em alguns setores da instituição e
resistência inicial a mudanças de fluxo assistencial. Desta forma, Rodrigues et
al. (2025) ressaltam que a adoção dessas ferramentas exige reorganização
das práticas profissionais, revisão de processos e desenvolvimento de
competências digitais, para que a tecnologia não se restrinja a um suporte
operacional, mas se torne elemento estruturante das ações em saúde.
Ainda assim, os resultados obtidos nos três
primeiros meses demonstram avanços importantes. A redução do tempo entre o
reconhecimento do quadro séptico e o início da antibioticoterapia foi o
principal desfecho positivo observado, o que dialoga com as evidências de
Siewers et al. (2021) e Tang et al. (2024) sobre a importância da
intervenção precoce. Além disso, foram observadas melhorias na acurácia do
preenchimento de dados clínicos e na estratificação de risco, facilitada pelo
protocolo informatizado, especialmente nas unidades de emergência e UTI.
Hancock et al. (2025) argumentam que
o avanço no cuidado da sepse dependerá da integração de saberes clínicos e
imunológicos com ferramentas digitais de apoio à decisão. Essa perspectiva se
alinha com a proposta do presente estudo, que destaca a importância de
abordagens interdisciplinares e tecnológicas no enfrentamento da sepse como um
problema de saúde pública.
A implementação do protocolo permitiu não
apenas avaliar os indicadores clínicos e operacionais associados, mas também
mapear desafios estruturais e culturais relevantes para a sustentabilidade da
intervenção. Todavia, o estudo limita-se ao passo que não incluiu desfechos
clínicos objetivos (ex.: mortalidade, tempo de internação), bem como não
executou análise estatística inferencial, sem comparação estatística formal por
seu caráter metodológico. Assim, sugere-se estudos voltados ao acompanhamento
longitudinal, incorporando análises quantitativas, avaliando o impacto clínico
e econômico e explorando a replicabilidade da experiência em outros contextos
hospitalares.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência de implantação do protocolo sepse
informatizado em um hospital público de alta complexidade demonstrou
viabilidade técnica, engajamento institucional e resultados assistenciais
expressivos nos primeiros meses. O aumento nas notificações, a identificação
precoce de casos e a integração das equipes sugerem contribuições importantes
para a segurança do paciente e para o fortalecimento da cultura de vigilância
clínica.
O envolvimento da enfermagem, o uso de tecnologia
simples, a estruturação de fluxos claros e a adoção de estratégias pedagógicas
e motivacionais para promover a adesão foram determinantes para o sucesso da
iniciativa. A experiência contribui para o compartilhamento de boas práticas em
saúde pública e reforça a importância de abordagens colaborativas, baseadas em
evidências. Destaca-se, ainda, o engajamento de múltiplos setores por meio de
uma gestão participativa orientada por dados no enfrentamento da sepse,
enfatizando sua relevância e suas implicações práticas e teóricas.
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