Evaluation
of the socioeconomic impacts provided by a higher education institution in the
Amazon
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Lidiane Caetano de
Mendonça Dias |
Mestra em
Economia Aplicada. Universidade Federal do Pará (UFPA) – Brasil.
lidicaetano20@gmail.com |
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Anderson Roberto Pires e
Silva |
Doutor em Ciências Contábeis. Universidade Federal do Pará (UFPA) – Brasil.andersonpires@hotmail.com |
RESUMO
Nos últimos anos, vários estudos vêm destacando os impactos que as
universidades provocam no desenvolvimento de uma região, deixando de ser vistas
somente como fomentadoras de ensino e de pesquisa e assumindo papel importante
no crescimento e no desenvolvimento econômico regional. O artigo tem como
objetivo avaliar a contribuição e os impactos socioeconômicos proporcionados
pelo Campus Universitário de
Bragança, da Universidade Federal do Pará, no município de Bragança (PA) e
adjacências. Quanto à metodologia, a pesquisa é descritiva, com procedimentos
técnicos de pesquisa bibliográfica e estudo de caso, adotando o método misto
sequencial explicativo. A estratégia de pesquisa foi o estudo de caso do Campus
Universitário de Bragança, da Universidade Federal do Pará, com aplicação de
questionários a 197 egressos e de entrevistas semiestruturadas a nove atores
locais. Os resultados demonstraram que o Campus Universitário de Bragança, da
Universidade Federal do Pará, tem contribuído na formação de capital humano,
nos aprimoramentos pessoal e profissional, na geração de emprego e de renda, na
valorização da democracia e na preservação ambiental. Conclui-se que a presença
da Universidade Federal do Pará, por meio do Campus Universitário de Bragança,
promove o fortalecimento da economia da região, contribuindo para o crescimento
de empreendimentos e do comércio local, por atrair um crescente número de
pessoas ao município.
Palavras-chave: universidade; desenvolvimento regional; capital humano.
ABSTRACT
In recent years, several studies have
highlighted the impacts of universities
on regional development, no longer being seen only as promoters of teaching and research, but
also as playing an important role in regional economic growth and development.
The article aims to evaluate the contribution
and socioeconomic impacts of the Bragança University Campus
of the Federal University of Pará to the municipality of Bragança (PA) and
surrounding areas. Regarding the methodology, the research is descriptive, using bibliographic research procedures and an explanatory sequential mixed method
approach. The research strategy was the case study of the Bragança University Campus
of the Federal University of Pará, with the application of questionnaires to
197 alumni and semi-structured interviews with nine local actors. The results
demonstrated that the Bragança University Campus of the Federal
University of Pará has contributed to the formation of human capital, personal
and professional development, job and income generation, the promotion of
democracy and environmental preservation. It is concluded that the presence of
the Federal University of Pará, through the Bragança University Campus, strengthens the regional economy, local
businesses and economic activities by attracting a growing number of people to the municipality.
Keywords: university; regional development; human capital.
Recebido em 31/03/2025. Aprovado em 31/03/2026. Avaliado pelo sistema double blind peer review. Publicado conforme normas da ABNT.
https://doi.org/10.22279/navus.v18.2108
1 INTRODUÇÃO
As Instituições de Ensino Superior (IES) têm desempenhado papéis estratégicos e transformadores nas dinâmicas de desenvolvimento socioeconômico,
especialmente em regiões periféricas e historicamente marginalizadas do país. A
literatura especializada destaca que o investimento em educação superior
contribui diretamente para a formação de capital humano, para o aumento da
produtividade do trabalho e para os estímulos à inovação e à geração de renda
(Menezes Filho; Oliveira, 2016; Schultz, 1973; Sen, 2000). Paralelamente, as
universidades promovem mudanças estruturais, ao ampliar o acesso ao
conhecimento e à cidadania, fomentando a mobilidade social e reduzindo as
desigualdades regionais (Etzkowitz; Zhou, 2017; Lopes; Almeida, 2025).
Nesse contexto, a presença de universidades no
interior do país não se limita à oferta de ensino; trata-se de um mecanismo de
transformação territorial, com impactos duradouros. A descentralização de
instituições públicas de ensino superior intensifica a movimentação econômica
regional, valoriza os saberes locais e fortalece o tecido social, ao mesmo
tempo em que incentiva o empreendedorismo, o associativismo e o surgimento de
novos arranjos produtivos. Autores como Valero e Van Reenen (2018) e Righi e
Ruppenthal (2013) demonstram que os efeitos positivos das universidades
transbordam os limites municipais, alcançando regiões vizinhas e criando
ecossistemas de inovação.
Na Região Norte, marcada por grandes desafios
logísticos, por baixa densidade populacional e por desigualdades históricas, a
expansão das universidades federais representa uma alternativa sólida de
desenvolvimento regional sustentável. Nesse sentido, a Universidade Federal do
Pará (UFPA) desempenha papel de liderança, ao incorporar os compromissos com a
Amazônia e com a democratização do acesso ao conhecimento em sua missão
institucional.
Com sede em Belém e com campi
distribuídos em 11 municípios do estado, a UFPA busca alcançar populações então
desassistidas por políticas educacionais robustas. Entre esses campi,
destaca-se o de Bragança, situado na Região de Integração (RI) Rio Caeté, no
Nordeste Paraense, a qual abriga mais de 532 mil habitantes e apresenta um
cenário de acentuados contrastes socioeconômicos. Embora Bragança se destaque
na microrregião, a RI como um todo registra um PIB per capita de R$
9.458,50 e uma renda per capita de apenas R$ 239,51, resultando em
51,23% da população em situação de extrema pobreza, segundo o Barômetro da
Sustentabilidade (2022).
Diante da relevância do Campus Universitário de Bragança/UFPA no cenário
regional, este estudo delineia-se pela seguinte questão: qual é a contribuição da Universidade Federal do
Pará para o desenvolvimento do município de Bragança e adjacências? Mais do que
aferir indicadores pontuais, a proposta avalia se a interiorização
universitária tem, efetivamente, mitigado desigualdades na Amazônia. Ao
articular os eixos econômico, social, político e ambiental, a pesquisa
evidencia o papel dessas instituições como vetores estruturantes de
transformação socioterritorial em regiões periféricas.
2
UNIVERSIDADE E
DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Corrêa, Silveira e Kist (2019, p. 12) conceituam esse processo como “[...] histórico, que exige transformação
nas bases sociais e econômicas, mudanças estruturais e, sobretudo, uma
estratégia construída de forma conjunta entre os diversos atores da região”,
refletindo-se em indicadores como poder de compra, investimentos, turismo e
dinamismo do mercado de trabalho (Strauf; Scherer, 2008).
Ao qualificar trabalhadores, as instituições elevam a renda média,
atraem empresas e aumentam a produtividade, a pesquisa e a capacidade de
absorção tecnológica regional (Wang, 2010). Conforme Goddard e Kempton (2011),
o acesso local ao ensino superior retém talentos e articula quatro frentes
decisivas: inovação científica, promoção de negócios, formação de capital
humano e equidade social. Ilustrando essa dinâmica, Goebel e Miura (2004) constataram
em Toledo (PR) uma alta de 14,59% no corpo discente (2000–2001), destacando o
duplo papel da universidade na capacitação técnica com avanço tecnológico
(pesquisa e extensão) e na dinamização do setor de serviços.
Sob o prisma da Teoria do Capital Humano, a educação permite analisar a
formação integral e o convívio plural no contexto neoliberal, sem desconsiderar
críticas à sua mercantilização (Cabral Neto; Silva; Silva, 2016). Ela gera
externalidades positivas para a sociedade ao expandir a consciência
ético-política, reduzir vulnerabilidades e fomentar o bem-estar coletivo
(Viana; Lima, 2010).
2.1 Impactos das Instituições de Ensino Superior no desenvolvimento regional
Na perspectiva de Bonho, Morais e Jung (2018), tanto a chegada de
acadêmicos externos quanto as demandas operacionais da própria universidade
impulsionam a oferta de bens e serviços na cidade, elevando a renda regional.
Esse papel tem orientado políticas públicas para o interior e cidades médias,
refletindo-se na interiorização da pós-graduação, onde mais de 50% dos cursos
já se localizam fora das capitais e regiões metropolitanas (Theis et al.,
2022).
Do ponto de vista macroeconômico, o acréscimo de 10% no número de
universidades tende a elevar o PIB per capita regional em 0,4%, superando os
custos de expansão (Valero; Reenen, 2018). No Brasil, Souza (1999) identificou
um incremento de 36% a 38% no PIB para cada ano adicional de escolaridade média
da população economicamente ativa. Dowrick (2003) aponta que cada ano extra de
estudo eleva os rendimentos de 5% a 10%; no contexto brasileiro, esse retorno
médio chega a 10%, um dos mais altos do mundo, atuando na redução da pobreza e
da desigualdade salarial (Castro et al.,
2006; Diniz; Diniz, 2019).
Entre 2009 e 2019, o total de graduados no país cresceu 10%, superando a
média de 9% da OCDE. Apesar disso, apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos
possuíam ensino superior em 2019, frente à média de 45% dos países do bloco,
confirmando que maior instrução amplia a empregabilidade e os rendimentos
(OCDE, 2020). Corroborando esse impacto, Ramos Filho (2023) concluiu em Alagoas
que os produtos das instituições de ensino superior possuem forte correlação
mútua e, combinados, apresentam elevado potencial indutor do desenvolvimento
regional.
3 DESENVOLVIMENTO, SOB A ÓTICA DAS DIMENSÕES AMBIENTAL, ECONÔMICA, SOCIAL E POLÍTICA
O Brasil é caracterizado por profundas
desigualdades sociais e regionais e apresenta um desenvolvimento concentrado e
excludente. Em regiões menos desenvolvidas, o acesso restrito a empregos e a
serviços básicos dificulta as oportunidades de crescimento pessoal e
profissional (Melo; Vieira, 2015).
As políticas educacionais visam equilibrar tais
oportunidades. O sistema de cotas e a assistência estudantil implicaram
mudanças no papel das universidades na sociedade e na economia (Brüne, 2015).
Pereira (2020) afirma que as universidades precisam diminuir as desigualdades
sociais, indo além do ensino, da pesquisa e da extensão para alcançar a
comunidade com ações de desenvolvimento.
As universidades, com as despesas de funcionários
e alunos, impactam significativamente a economia. Kelly, McNicoll e White
(2014) revelaram que o ensino superior é eficaz na geração de PIB per capita em
comparação a outros setores. Como produtoras e difusoras de conhecimento, as
instituições poderiam participar mais de estratégias locais, transformando esse
saber em produtividade e competitividade regional (Rolim; Serra, 2009).
A relação entre Educação e política gera
benefícios ao Estado de Direito, à estabilidade política e aos direitos humanos
(McMahon, 2018; Valero; Reenen, 2018). Como apontam Gruginskie, Genro e Miorando
(2018, p. 738), o espaço formativo universitário deve ser “[...] lócus do debate democrático, da inclusão, da diversidade, no
exercício da cidadania”. Essa responsabilidade social orienta a formação
cidadã, na qual “[...] o diálogo entre as
disciplinas, a sustentabilidade e o compromisso social são conceitos de
referência permanente” (Barbiero, 2012, p. 7).
Sob a ótica dadimensão ambiental, Altvater (1995,
p. 26) pondera que“[...] desenvolvimento
e meio ambiente encontram-se em uma relação recíproca: atividades econômicas
transformam o meio ambiente e o ambiente alterado constitui uma restrição
externa para o desenvolvimento econômico”. Faz-se necessário, portanto,
repensar o uso dos recursos naturais (Rampazzo, 1996), mitigar impactos
ecológicos e engajar a sociedade em práticas sustentáveis (Rosa et al.,
2015).
Essa
investigação se caracteriza como descritiva, contando com procedimentos
técnicos de pesquisa bibliográfica (Gil, 2018; Marconi; Lakatos, 2021). Quanto à
abordagem da pesquisa, adota-se um método misto sequencial explicativo, com
coleta e análise iniciais de dados quantitativos, seguidas da coleta e análise de
dados qualitativos (Creswell
e Plano Clark, 2013).
A
estratégia de pesquisa foi o estudo de caso do Campus Universitário de
Bragança, da Universidade Federal do Pará, que oferta cursos regulares, em sua
maioria de licenciatura, além de administrar cursos em outros campi, em municípios circunvizinhos,
como Viseu, Capanema e Augusto Correa. Quanto ao universo e à amostra da
pesquisa, foram enviados e-mails com o questionário a 1.500 discentes formados
(egressos) de vários cursos do Campus Universitário de Bragança da UFPA,
obtendo 197 respostas, e foram realizadas entrevistas com nove atores locais, mediante
a apresentação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE) pelos participantes, assegurando o sigilo, o anonimato e a
voluntariedade da participação. O grupo de entrevistados foi composto por representantes de
cooperativas, de sindicatos, de associações e de órgãos públicos de Bragança,
perfazendo um universo de pesquisa de 1509 pessoas e uma amostra de 206.
Na etapa inicial do estudo, aplicou-se um
questionário estruturado com itens abertos e fechados aos egressos do Campus
Universitário de Bragança da UFPA. O instrumento foi organizado em três seções:
a primeira voltada à caracterização sociodemográfica dos participantes; a
segunda destinada ao perfil acadêmico; e a terceira estruturada a partir da
escala
Likert[1] com o objetivo de mensurar a
percepção dos respondentes acerca da atuação da instituição sob quatro
dimensões do desenvolvimento: econômica, social, política e ambiental. Nessa pesquisa, a escala de verificação
de Likert consistiu em utilizar os construtos dimensão política, dimensão
ambiental, dimensão econômica e dimensão social e desenvolver quatro afirmações
relacionadas a cada construto. A Figura 1 apresenta as quatro dimensões do
desenvolvimento utilizadas neste trabalho e expõe as afirmações das dimensões
ambiental (A1, A2, A3 e A4), econômica (E1, E2, E3 e E4), social (S1, S2, S3 e
S4) e política (P1, P2, P3 e P4) utilizadas na investigação.
Figura 1 – Dimensões utilizadas e suas
respectivas afirmações para a Escala Likert
A
Figura 2 mostra a escala para medição do grau de conformidade dos egressos,
quanto às afirmações realizadas sobre esta instituição de ensino, em sete pontos,
isto é, os dados coletados foram de nível qualitativo/categórico ordinal de 1 a
7, como medida do grau de conformidade.
Figura
2 - Escala Likert, em sete pontos
|
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
|
Discordo
Totalmente |
Discordo
Parcialmente |
Discordo |
Indiferente |
Concordo |
Concordo
Parcialmente |
Concordo
Totalmente |
|
(DT) |
(DP) |
(D) |
(I) |
(C) |
(CP) |
(CT) |
Fonte:
Após a tabulação, os dados foram tratados com
técnicas de estatística descritiva. Na primeira e na segunda seções do
questionário (perfil pessoal e profissional), foram utilizados cálculos de
percentuais para identificar as características sociodemográficas dos egressos
da UFPA Campus Bragança. Posteriormente, na análise da terceira seção,
em que os egressos emitiram seu nível de concordância (percepção do papel da
UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local), conforme Costa (2011),
os sete pontos da escala de Likert foram organizados em “Concordo” (Fórmula 1)
e “Discordo” (Fórmula 2):
|
|
(Form. 1) |
|
|
|
|
|
(Form. 2) |
Na análise descritiva das dimensões, foi realizada a
correlação de Pearson (r), em que adotaram-se os critérios de Marôco (2014),
que classifica as correlações em baixa (|r|<0,25), em moderada
(0,25≤|r|<0,50), em forte (0,50≤|r|<0,75) e em muito
forte (|r|≥0,75). A confiabilidade da escala foi avaliada, por
meio do exame de sua consistência interna, pelo cálculo do coeficiente alfa de
Cronbach, considerando valores ≥0,70 como indicadores de confiabilidade
apropriados para os fatores em estudo, conforme Marôco e Garcia-Marques (2006).
Na análise do coeficiente de variação, que fornece a alteração
dos dados obtidos, em relação à média, adotaram-se os critérios de Brito (2019),
que classifica os coeficientes de variação em baixa (≤15%) (dados
homogêneos), em média (>15% a≤30%)
e em alta dispersão (>30%) (dados heterogêneos).
Na segunda fase da pesquisa, foram aplicadas entrevistas
semiestruturadas a atores-chave do município de Bragança, que representam cada
dimensão proposta no estudo. Os participantes foram escolhidos por critérios de
acessibilidade e de conveniência, com amostragem não probabilística. Assim, os
selecionados foram: a diretoria administrativa da Clínica Ultrapreven; a Cooperativa
Mista dos Agricultores familiares dos Caetés (COOMAC); o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Município de
Bragança (PA); a diretora da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bragança (CDL); uma
prestadora de serviços da Prefeitura de Tracuateua (PA); e representantes de
algumas secretarias do município de Bragança, como Aquicultura e Pesca,
Administração e Defesa Social, Agricultura, Meio Ambiente e Finanças (Quadro
1).
O roteiro da entrevista foi dividido em três partes: a
primeira parte se refere a dados de caracterização pessoal e profissional; asegunda
parte foi dividida em tópicos, com perguntas de ordem ambiental, econômica,
social e política, relacionadas às quatrodimensões do desenvolvimento; e a
terceira parte continha perguntassobre aspercepçõesdos participantes, em
relação àcontribuição da UFPA para a qualidade de vida do município.
Quadro
1 - Características dos entrevistados
|
Identificação |
Sexo |
Formação |
Ramo de atividade |
Município |
|
Entrevistado 1 |
Feminino |
Doutora em Biodiversidade Aquática |
Serviço Público |
Bragança |
|
Entrevistado 2 |
Masculino |
Mestrando em Impactos Antrópicos da Amazônia |
Serviço Público |
Bragança |
|
Entrevistado 3 |
Feminino |
Graduada em Letras e em Gestão Hospitalar |
Gestora de empresa privada |
Bragança |
|
Entrevistado 4 |
Masculino |
Engenheiro Agrônomo |
Serviço Público |
Bragança |
|
Entrevistado 5 |
Masculino |
Não informado |
Serviço Público |
Bragança |
|
Entrevistado 6 |
Feminino |
Arquiteta |
Associação e Serviço Público |
Bragança e Tracuateua |
|
Entrevistado 7 |
Masculino |
Discente em Pedagogia |
Cooperativa |
Bragança |
|
Entrevistado 8 |
Masculino |
Não informado |
Sindicato |
Bragança |
|
Entrevistado 9 |
Masculino |
Administrador |
Serviço Público |
Bragança |
Após a transcrição das entrevistas, adotou-se como
procedimento metodológico a Análise de Conteúdo que, segundo Bardin (2011),
compreende um conjunto de técnicas destinadas a sistematizar e subsidiar a
interpretação de mensagens, viabilizando a produção de inferências a partir de
três etapas fundamentais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos
resultados obtidos.
Durante a exploração dos dados, executaram-se os
processos de codificação e de categorização recomendados pela autora. A
codificação consistiu em transformar os relatos em unidades de significado
analíticas, sob o critério de fidelidade discursiva ao que foi manifestado
pelos participantes. Em seguida, a categorização organizou esses códigos em
temas abrangentes segundo o critério de relevância para os objetivos do estudo,
permitindo delinear padrões convergentes e fundamentar a interpretação do
corpus empírico.
5 A CONTRIBUIÇÃO DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DO PARÁ PARA O DESENVOLVIMENTO DO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA E ADJACÊNCIAS
O Campus Universitário de Bragança oferece cursos em diversas
áreas.No caso dos egressos participantes da pesquisa, seus cursos de formação foram:
Pedagogia (28%); Engenharia de Pesca (17,5%); Língua Portuguesa (15,5%); Língua
Inglesa (9,5%); Matemática (8,5%); História (7,5%); e outros cursos (13,5%).
A pesquisa mostrou que a UFPA atrai alunos de Bragança, onde está
situado o seu campus - que, em conjunto com seus polos Capanema, Viseu e
Castanhal, engloba 64% dos discentes - , de municípios adjacentes, como São
Miguel do Guamá, Augusto Corrêa e Maracanã (7%), de outros municípios
paraenses, como Peixe-boi, Portel, etc., e de municípios de outros estados, como
Cândido Mendes (do Maranhão) e Fortaleza (do Ceará).
Os resultados indicam que o Campus Universitário de Bragança
exerce um papel relevante na articulação entre formação acadêmica e demandas
regionais, evidenciando sua importância na interiorização do ensino superior. A
diversidade de cursos ofertados revela não apenas a preocupação com a qualificação
profissional em diferentes áreas do conhecimento, mas também um forte
compromisso com a formação de professores e com setores estratégicos da
economia local. Paralelamente, a abrangência geográfica do público atendido
demonstra que a instituição extrapola os limites do município-sede,
consolidando-se como um polo educacional de referência, capaz de atrair
estudantes de diferentes localidades e contribuir para a dinamização social e
educacional da região amazônica.
Tabela
1 – Contribuição dos cursos para os egressos
|
|
Ingresso no
mercado de trabalho |
Ocupação
profissional atual |
Aumento do
rendimento |
|
Discordam |
20% |
23% |
31% |
|
Concordam |
80% |
77% |
69% |
Fonte: elaborada pelos autores, a partir da pesquisa de
campo (2021).
Quanto à empregabilidade, constatou-se que 66% dos
egressos estavam empregados e 34% não estavam trabalhando no momento da coleta
de dados. A maioria dos egressos empregados trabalhava em Bragança (37%),
Capanema (9%) e Belém (6%). Os demais trabalhavam principalmente em municípios
próximos, como Peixe-Boi, Augusto Corrêa, Bonito, Cachoeira do Piriá,
Castanhal, Tomé-Açu, Tracuateua, Vigia de Nazaré e Viseu. Infere-se, a partir
desses indicadores, que a atuação da UFPA na região Nordeste Paraense cumpre
uma função estratégica de integração produtiva. A absorção majoritária de
egressos pelo mercado de trabalho em Bragança e municípios adjacentes sugere
uma contribuição positiva da universidade para o desenvolvimento regional,
validando a tese de que a expansão do ensino superior é fundamental para o
incremento da empregabilidade em contextos fora dos grandes centros urbanos.
Nesse
sentido, cerca de 80% dos egressos concordaram que o curso no qual se formaram
na UFPA contribuiu para seu ingresso no mercado de trabalho. Cerca de 77%
responderam que o curso colaborou para a sua profissão atual e 69% concordaram
que sua formação na UFPA contribuiu para o aumento dos seus rendimentos
salariais. Depreende-se, portanto, que a formação oferecida pela UFPA atua como
um diferencial competitivo determinante na trajetória profissional dos
egressos. A percepção majoritária de que o curso impulsionou o ingresso no
mercado e a elevação de renda evidencia que o investimento em educação superior
na região não gera apenas conhecimento acadêmico, mas se traduz em benefícios
socioeconômicos tangíveis, consolidando a universidade como uma instância de
mobilidade social efetiva.
Quanto
às quatro dimensões de desenvolvimento analisadas (ambiental, social, econômica
e política), cerca de 37,5% dos egressos acreditam que a universidade promove
ações nas quatro dimensões em análise, enquanto somente 6% dos egressos disseram
que a UFPA Campus Bragança não promove quaisquer ações nestas dimensões.
De acordo com a Tabela 2, o construto social reuniu assertivas que atingiram a
maior intensidade de concordância do estudo, com destaque para S3 e S4 (>80%).
Nesse construto, destacaram-se as assertivas que envolvem atuações da UFPA no
desenvolvimento de projetos de extensão voltados à comunidade local (S3, 15%
vs. 85%) e na promoção de acessos àformação e a aprimoramentos pessoal e
profissional (S4, 15% vs. 85%), o que revela as ações da UFPA Campus Bragança
no desenvolvimento social do seu município-sede.
Os resultados apontam uma percepção majoritariamente
positiva dos egressos quanto à atuação da universidade, indicando que a
instituição tem conseguido se posicionar de forma abrangente nas diferentes
dimensões analisadas. Observa-se que as ações voltadas ao campo social se
destacam com maior reconhecimento, o que demonstra um vínculo consistente entre
a universidade e a comunidade em que está inserida. Esse cenário destaca o
fortalecimento do papel social da instituição, especialmente por meio de
iniciativas que promovem a integração com a população local e ampliam
oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Dessa forma, a
universidade não apenas cumpre sua função formativa, mas também se consolida
como agente ativo no desenvolvimento social, contribuindo para a melhoria das
condições educacionais e para a dinamização do contexto em que atua.
Tabela 2 – Papéis
da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto social
|
Código |
Assertivas |
Discordam |
Concordam |
|
S1 |
Desenvolve projetos de promoção de inclusão social e políticas de cotas |
20% |
80% |
|
S2 |
Promove ações para o desenvolvimento do associativismo |
32% |
68% |
|
S3 |
Desenvolve projetos de extensão, voltados à comunidade local |
15% |
85% |
|
S4 |
Promove acessos à formação e aos aprimoramentos pessoal e profissional |
15% |
85% |
Os projetos de extensão contribuem para o desenvolvimento
local (Santos, 2014), porém a atuação da UFPA no desenvolvimento do
associativismo obteve a quarta maior proporção de discordância. Em
contrapartida, com concordância entre 60% e 80%, destacou-se a formação de mão
de obra voltada às demandas da região (E3, 20% vs. 80%), em consonância com
Dantas e Clementino (2014) e Goddard e Kempton (2011) (Tabela 3).
Embora a universidade desempenhe um papel relevante no
desenvolvimento local por meio de projetos de extensão, essa atuação não se
distribui de maneira homogênea entre todas as dimensões do desenvolvimento
social e econômico. Nota-se um reconhecimento consistente da contribuição
institucional na qualificação de mão de obra alinhada às demandas regionais, o
que reforça sua função estratégica na formação de profissionais capazes de
atender às especificidades do contexto local. Por outro lado, a menor adesão às
ações relacionadas ao fortalecimento do associativismo sugere uma lacuna na
promoção de iniciativas coletivas e de organização social, aspecto fundamental
para o desenvolvimento sustentável das comunidades. Esse contraste revela que,
apesar dos avanços, ainda há espaço para ampliar o alcance das ações
extensionistas, especialmente no estímulo à participação comunitária e à
construção de redes colaborativas.
Tabela 3 – Papéis da UFPA Campus Bragança no
desenvolvimento local, no aspecto econômico
|
Código |
Assertivas |
Discordam |
Concordam |
|
E1 |
Desenvolve projetos para criar oportunidades econômicas
naregião |
27% |
73% |
|
E2 |
Propõe parcerias com os sistemas produtivoslocais |
26% |
74% |
|
E3 |
Forma mão de obra direcionada às necessidades da região |
20% |
80% |
|
E4 |
Desenvolve ações para o desenvolvimento do
cooperativismo |
27% |
73% |
Outros aspectos observados foram os da atuação da UFPA no
desenvolvimento de projetos para criar oportunidades econômicas para a região
(E1, 27% vs. 73%), da promoção de práticas de valorização da democracia e de
suas condutas participativas (P2, 22% vs. 78%) e da promoção de eventos/cursos
de conscientização sobre política para a sociedade (P3, 29% vs. 71%) (Tabela
4).
As análises indicam que a universidade vem desempenhando
um papel significativo na promoção do desenvolvimento regional, especialmente
ao fomentar iniciativas que ampliam oportunidades econômicas e contribuem para
a dinamização local. Além disso, destaca-se sua atuação no fortalecimento de
valores democráticos, ao incentivar práticas participativas e promover espaços
de reflexão e debate sobre questões políticas. Esse conjunto de ações indica um
compromisso institucional que vai além da formação acadêmica, alcançando também
a formação cidadã e o engajamento social. Ainda assim, a variação nos níveis de
reconhecimento dessas iniciativas sugere que há potencial para ampliar e
consolidar tais ações, de modo a fortalecer ainda mais o impacto da
universidade tanto na esfera econômica,política e social.
Tabela
4 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto
político
|
Código |
Assertivas |
Discordam |
Concordam |
|
P1 |
Desenvolve parcerias com órgãos públicos no âmbito do
desenvolvimento |
26% |
74% |
|
P2 |
Promove a valorização da democracia e dassuas práticas
participativas |
22% |
78% |
|
P3 |
Promove eventos/cursos de conscientização sobre
política para a sociedade |
29% |
71% |
|
P4 |
Desenvolve projetos de pesquisa e de extensão sobre
gestão/políticas públicas |
28% |
72% |
Quanto àdimensão ambiental, o resultado obtido na assertiva
sobre a participação da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento deprojetos
voltados ao meio ambiente e àpreservação ambiental ficou no estrato superior da
escala (A2, 24% vs. 76%) (Tabela 5).
Tabela
5 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto
ambiental
|
Código |
Assertivas |
Discordam |
Concordam |
|
A1 |
Promove práticas de coleta seletiva de lixo e de descarte
de resíduos |
38% |
62% |
|
A2 |
Desenvolve projetos voltados ao meio ambiente e àpreservação
ambiental |
24% |
76% |
|
A3 |
Desenvolve programas de conscientização contra poluições
sonora e do ar |
53% |
47% |
|
A4 |
Trata do combate ao desperdício de recursos hídricos |
39% |
61% |
Constatou-se
que a universidade desenvolve poucos programas de conscientização contra a
poluição sonora e do ar (53% discordam da afirmação). Apesar de a maioria
indicar práticas de coleta seletiva e descarte de resíduos (A1, 38% vs. 62%) e
de combate ao desperdício hídrico (A4, 39% vs. 61%), os indicadores
apresentaram baixos níveis de concordância. Os dados corroboram Santos (2014),
que identificou a dimensão ambiental como praticamente inexistente na Universidade
Estadual de Santa Cruz (UESC).
Na dimensão econômica, a assertiva sobre parcerias com o
sistema produtivo local (E2, 26% vs. 74%) soma-se às ações para o
cooperativismo (E4, 27% vs. 73%) — ambas no estrato superior, corroborando
Barbiero (2012). A universidade demonstra, assim, maior inserção regional ao
articular-se com o setor produtivo e incentivar a organização coletiva.
A análise entre variáveis revelou correlações muito
fortes e significativas (a 5%) entre as dimensões social e econômica (r=0,761)
e social e política (r=0,768) (Tabela 6). Os resultados indicam que há
relações intrínsecas entre estas dimensões e que ações de desenvolvimento
social, por exemplo, podem estar associadas positivamente ao desenvolvimento
econômico e/ou político. Além disso, foram observadas correlações fortes (com r
entre 0,50 e 0,75) e significativas (a 5%) entre as dimensões ambiental, social
e política e entre as dimensões econômica e política.
Dessa maneira, constata-se o protagonismo da universidade
nas diferentes dimensões do desenvolvimento, evidenciando avanços mais
consistentes em algumas áreas e fragilidades em outras. No campo ambiental,
observa-se uma presença ainda incipiente de iniciativas voltadas à
conscientização e ao uso sustentável dos recursos, o que sugere que essa
dimensão não tem recebido a mesma atenção institucional que as demais. Mesmo
diante de algumas práticas existentes, sua percepção limitada indica a
necessidade de maior investimento e visibilidade em ações ambientais.
Por outro lado, na dimensão econômica, a universidade
demonstra maior inserção no contexto regional, especialmente ao estabelecer
conexões com o sistema produtivo e incentivar formas de organização coletiva, o
que reforça seu papel no fortalecimento das dinâmicas locais de produção e
trabalho. Além disso, a análise das relações entre as dimensões aponta para uma
forte interdependência, sobretudo entre os aspectos sociais, econômicos e
políticos, indicando que avanços em uma dessas esferas tendem a repercutir
positivamente nas demais. Esse cenário evidencia que o desenvolvimento
promovido pela universidade é multifacetado, porém ainda demanda maior
equilíbrio, especialmente com a incorporação mais efetiva da dimensão ambiental
às suas práticas institucionais.
A relação entre as dimensões social e política corrobora
os resultados de Gruginskie, Genro e Miorando (2018), que obtiveram resultados
positivos quanto à contribuição das universidades públicas na formação de
sujeitos políticos, a partir do diálogo com a sociedade. Quanto à relação entre
as dimensões ambiental, social e política, essa foi observada no estudo de
Rampazzo (1996), em que se afirma a necessidade de tentar harmonizar objetivos
socioeconômicos e ambientais, com melhores definições dos usos de recursos
naturais e das finalidades de crescimento.
Tabela 6 – Análise das dimensões de desenvolvimento
|
Dimensões |
Ambiental |
Econômica |
Social |
Política |
|
|
|
Ambiental |
(0,894) |
|
|
|
|
|
|
Econômica |
0,697* |
(0,873) |
|
|
|
|
|
Social |
0,659* |
0,761* |
(0,894) |
|
|
|
|
Política |
0,676* |
0,703* |
0,768* |
(0,903) |
|
|
|
Número de variáveis |
4 |
4 |
4 |
4 |
|
|
|
Média |
4,358 |
4,945 |
4,873 |
5,234 |
|
|
|
Desvio Padrão |
1,4862 |
1,3620 |
1,3164 |
1,4258 |
|
|
|
Coeficiente de Variação |
34% |
28% |
27% |
27% |
|
|
|
Moda |
4,5 |
5 |
6,25 |
4,75 |
|
|
|
Mínimo |
1 |
1 |
1 |
1 |
|
|
|
Máximo |
7 |
7 |
7 |
7 |
|
|
|
Nota: * Significativa
(a 5%) |
|||||
Quanto à confiabilidade da escala de consistência
interna, os resultados foram: ambiental=0,894; social=0,894; econômica=0,873; e
política=0,903, indicandoalto nível de consistência interna. Os coeficientes de
variação dasdimensõesambiental, econômica, social e política foram 34%, 28%,
27% e 27%, respectivamente, a partir dos quaisse pode concluir que os dados dasdimensõessocial,
política e econômica, por possuírem menor dispersão relativa, apresentam maior
homogeneidade do que os referentes à dimensão ambiental.
Os
resultados revelam uma universidade que cumpre com excelência seu papel de
transformadora social e política, mas que ainda falha em integrar a
sustentabilidade ambiental como uma prática cotidiana e visível. A forte
correlação entre os eixos social e político sugere que a UFPA em Bragança não
apenas "forma profissionais", mas contribui para a consolidaçãodo
capital social necessário para o desenvolvimento regional na Amazônia. Essa
lacuna na dimensão ambiental reflete o antagonismo ainda existente entre o
discurso do desenvolvimento econômico e a qualidade ambiental, onde o desafio
reside em realizar uma abordagem global da questão sem se afastar das
especificidades regionais. Conforme aponta Rampazzo (1996), a aplicação de
alternativas ecológicas depende da superação de interesses privados e da
internalização de custos, o que exige uma sociedade consciente e organizada
capaz de exercer poder sobre essas dinâmicas. Assim, para que a
sustentabilidade deixe de ser um elemento periférico, é urgente que a instituição
promova inserções humanas compatíveis com a potencialidade dos recursos e com a
fragilidade dos ecossistemas locais.
6 PERCEPÇÕES DOS
ATORES LOCAIS, EM RELAÇÃO ÀCONTRIBUIÇÃO DO CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE
BRAGANÇA, DA UFPA, AO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA
Ao analisar a contribuição do Campus Universitário
de Bragança à cidade, a partir das perspectivas dos atores locais, foi possível
constatar a importância da instituição no fomento ao desenvolvimento de sua
região de inserção. Dessa maneira, quanto àassertiva sobre a atuação da UFPA no
desenvolvimento de projetos de extensão voltados à comunidade local, sete
entrevistados confirmaram que a UFPA promove estas ações. O Entrevistado 6
destacou que isto ocorre “[...] principalmente
nas áreas de reserva extrativista [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 6), enquanto o
Entrevistado 2 enfatizou: “Sim, extensão
tem bastante. O que a UFPA daqui tem feito é a pesquisa em comunidades, após a
pesquisa, voltamos à comunidade para apresentarmos os resultados[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 2). Nesse sentido, a
UFPA destaca que, por meio de suas atividades de extensão, é possível levar
conhecimentossobre questões ambientais, étnicas e culturaisàs comunidades,
mesmo para as que não utilizam a universidade para o ensino superior (UFPA,
2016).
Assim, a atuação da UFPA em projetos de extensão
demonstra um compromisso efetivo com a aproximação entre universidade e
comunidade, demonstrando a relevância do conhecimento acadêmico aplicado a
contextos sociais específicos. Essa relação não apenas fortalece os vínculos
locais, mas também permite que as demandas da população influenciem a agenda de
pesquisa, criando um ciclo de retorno que valoriza tanto a produção científica
quanto o desenvolvimento comunitário. Além disso, a presença de projetos em
áreas estratégicas, como reservas extrativistas, indica uma preocupação
institucional com o equilíbrio entre preservação ambiental e promoção do
bem-estar social, reforçando a ideia de que a extensão universitária pode ser
um instrumento para integrar educação, sustentabilidade e transformação social.
De acordo com o documento Relatório de Gestão do Campus
Universitário de Bragança da UFPA (UFPA, 2017), a extensão estreita os
vínculos com a sociedade e confere maior materialidade ao papel institucional
da universidade, desenvolvendo uma constante relação de aprendizagem com a
comunidade.
Quanto perguntado sobre a promoção de acessos à formação
e aos aprimoramentos pessoal e profissional, pela UFPA, o Entrevistado 1
enfatizou:
“Nós somos
referência nas áreas, como genética, por exemplo, ecologia de manguezal. Então,
o campus tem esse investimento em formação. Têm cursos de mestrado e doutorado,
que seria esse melhoramento profissional [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).
De acordo com o Entrevistado 9, a UFPA promove parcerias
com órgãos da região: “[...] hoje nós
temos uma parceria da UFPA com a secretaria de educação, se refere a parte de
formação de professores. Temos doutores, não precisando trazer de fora,
trabalhamos com os profissionais daqui da UFPA” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 9). Nesse sentido, deve-se
frisar que investimentos em capital humano geram retornos econômicos, tanto para
a sociedade em geral quanto para os individuos (Viana; Lima, 2010).
Sobre a atuação da UFPA na formação de mão de obra
direcionada às necessidades da região, apesar de a maioria responder que sim,
houve divergências nas respostas dos entrevistados.
“Eu acho que não é
um problema só de Bragança, mas eu acho que é um problema de vários campi [...]. Eu acho que a academia, como um todo, tem nos preparados para sermos
acadêmicos, e não para sermos profissionais [...]. Não temos uma formação que nos permita ter maior essa noção de realidade
e necessidade social. Eu acho que a gente acaba se preocupando mais com as
pesquisas, publicações, currículo, mas, no geral, as tecnologias sociais e
desenvolvimento, contato com as comunidades, e todas essas questões nós não
somos preparados [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).
O Entrevistado 9, por sua vez, observou que:
“[...] quanto a formação de professores, tem história, pedagogia, biologia que é
uma referência no país, é bem diferenciado, tem também a engenharia de pesca
que ajuda muito na nossa região, o estudo na nossa área costeira[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 9).
Assim, os resultados da investigação vão ao encontro do
que sustentam Bonho, Morais e Jung (2018, p. 16), que observaram que as
universidades oferecem vastas oportunidades de formação e de qualificação
profissional aos alunos, com as próprias instituições de ensino utilizando esta
mão de obra, o que contribui para o desenvolvimento local.
Em relação ao aspecto político, o Entrevistado 5
ressaltou a importância da democracia: “[...]
o que vale na democracia é a opinião de cada um, que na democracia não tem o
mais sábio, o mais inteligente, o melhor. O que tem são pessoas capazes de
contribuir com a sociedade[...]”
(informação obtida por e-mail do Entrevistado 5).Os resultados da
dimensão política corroboram as pesquisas de Gruginskie, Genro e Miorando
(2018) e de Valero e Van Reenen (2018).
Sobre as ações da UFPA voltadas ao meio ambiente, o
Entrevistado 3 afirmou: “Desconheço práticas de coleta seletiva de
lixo[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 3), enquanto o Entrevistado 1:
“[...] apenas alguns grupos que trabalham educação ambiental, mas não que a
universidade, principalmente dentro do campus promova coleta seletiva ou
descarte de resíduos, inclusive, parte do meu doutorado foi aqui em Bragança, e
eu tinha alguns reagentes que precisava descartar, mas não encontrava um local
adequado para isso[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).
Na Resolução
n.º 636, de 20 de dezembro de 2007, art. 3º, parágrafo único, inciso VI, do Campus
Universitário de Bragança, consta que a UFPA buscará “[...] desenvolver
programas de educação ambiental que visem a conscientização da sociedade”
(UFPA, 2007). Nesse sentido, a Educação Ambiental pode proporcionar
conscientização àsociedaderelativamente às atividades humanas e suas consequências
para o meio ambiente (ROSA et al., 2015). Para Rampazzo (1996), o
problema não está na escolha entre crescimento e qualidade ambiental, mas em
buscar a harmonização (apesar das dificuldades) entre os objetivos
socioeconômicos e ambientais.
Depreende-se
que a ausência de políticas claras de gestão de resíduos e a falta de
estruturas adequadas para o descarte de materiais específicos revelam um
descompasso entre os projetos isolados de educação ambiental e a gestão
institucional de práticas cotidianas de sustentabilidade. Essa constatação
sugere que, embora haja iniciativas pontuais de conscientização, ainda há um
espaço considerável para que a instituição incorpore medidas sistemáticas e
visíveis de responsabilidade ambiental.
Quanto à contribuição da UFPA para a melhoria da qualidade
de vida no município, os entrevistados concordaram que ter um campus da
UFPA no município movimentou a economia e, também, atraiu pessoas de outras
regiões. O Entrevistado 3 destacou, quanto a isto: “Formação traz mudança
cultural e melhora a economia, pois incentiva pessoas de outros municípios a
estudarem em Bragança[...]”
(informação obtida por e-mail do Entrevistado 3),enquanto o
Entrevistado 7 ressaltouque a UFPA:
“Contribui na
educação. Movimenta a economia, pois traz muitos estudantes e professores para
a região. Há também novas pesquisas na área da Biologia e Pesca, promovendo a
preservação e reprodução de peixes e caranguejos. Há estudos também voltados
para os rios da área costeira, influenciando muito na economia por conta do
pescado[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 7).
O Entrevistado 2 fez uma observação crítica sobre a falta
de estudos ligados àagricultura: “[...]
eu acho deficitário essa parte da agricultura que é algo que é o potencial da
cidade, e a gente tem poucas pesquisa e estudos nessa área por não haver curso
na área na universidade[...]”
(informação obtida por e-mail do Entrevistado 2),ao passo que o Entrevistado 7 colocou: “Na
agricultura, não há cursos, apenas algumas pesquisas isoladas (laboratórios)
com trabalhos em agricultura, projetos específicos[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 7).
Nesse
viés, Ramos Filho (2023) afirma que as universidades encontram-se desconectadas
das demandas regionais, gerando descompasso entre a formação ofertada e as
necessidades sociais — cenário agravado por currículos defasados frente às
exigências contemporâneas.
A
análise revela lacunas no suporte ao potencial agrícola da região. A ausência
de cursos específicos demonstra que a aproximação com o setor produtivo rural
permanece incipiente. Diante dessa carência, recomenda-se expandir a atuação do
campus para as Ciências Agrárias, consolidando a UFPA como indutora de um
desenvolvimento articulado às realidades produtivas da Amazônia.
7 CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O
presente estudo avaliou os impactos socioeconômicos da UFPA em Bragança e
regiões adjacentes, confirmando o seu papel estratégico no desenvolvimento
regional. O campus fomenta a qualificação do capital humano, contribui para a
geração de emprego e dinamiza o comércio local através da atração de estudantes
e profissionais. Esse protagonismo evidencia-se na absorção de diplomados em
áreas estratégicas - como as licenciaturas, a Engenharia de Pescas e a Biologia,
essenciais para a comunidade piscatória e a conservação da zona costeira.
Teoricamente,
a pesquisa avança ao validar um modelo de análise integrada das dimensões
econômica, social, política e ambiental em um contexto de periferia amazônica.
Demonstrou-se que o impacto universitário transcende indicadores financeiros
isolados; a forte correlação encontrada entre as dimensões social e política
(r=0,768), por exemplo, fornece evidências de que a universidade fortalece o
capital social e a governança local, elementos vitais para a sustentabilidade
de territórios distantes dos grandes centros urbanos.
Contudo,
a análise revelou lacunas críticas. A dimensão ambiental registrou as maiores
discordâncias, expondo um descompasso entre discursos acadêmicos e práticas
cotidianas (como coleta seletiva e combate às poluições sonora e do ar). No
âmbito social, o baixo estímulo ao associativismo indica distanciamento das
entidades de classe. Para mitigar esses gargalos, recomenda-se institucionalizar
programas de logística verde, fortalecer parcerias com prefeituras e criar
fóruns permanentes com associações e produtores rurais, fomentando a inovação
social.
Por
fim, observa-se a necessidade de diversificar a oferta de cursos para atender
às vocações regionais negligenciadas, como o setor agrícola, evitando a
migração de jovens para outros centros. Sugere-se que estudos futuros
aprofundem a análise do retorno econômico da educação no desenvolvimento
regional e incorporem a dimensão cultural ao modelo de avaliação. Ampliar o
diálogo com uma gama maior de atores locais permitirá consolidar, de forma
ainda mais robusta, o papel das Instituições de Ensino Superior como agentes
fundamentais de transformação na Amazônia.
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[1] A escala Likert é usada principalmente em pesquisas de mercado, para entender as opiniões e as atitudes de indivíduos, em relação a um produto ou serviço (Likert, 1932). Consistindo em um conjunto de afirmações,que buscam medir a reação de uma pessoa em três, cinco, seteou novecategorias, nas quais o indivíduo pode manifestar seu grau de concordância ou de satisfação, em relação a um produto ou serviço.