Anderson Roberto Pires e Silva

https://orcid.org/0000-0002-1659-8153

Nos últimos anos, vários estudos vêm destacando os impactos que as universidades provocam no desenvolvimento de uma região, deixando de ser vistas somente como fomentadoras de ensino e de pesquisa e assumindo papel importante no crescimento e no desenvolvimento econômico regional. O artigo tem como objetivo avaliar a contribuição e os impactos socioeconômicos proporcionados pelo Campus Universitário de Bragança, da Universidade Federal do Pará, no município de Bragança (PA) e adjacências. Quanto à metodologia, a pesquisa é descritiva, com procedimentos técnicos de pesquisa bibliográfica e estudo de caso, adotando o método misto sequencial explicativo. A estratégia de pesquisa foi o estudo de caso do Campus Universitário de Bragança, da Universidade Federal do Pará, com aplicação de questionários a 197 egressos e de entrevistas semiestruturadas a nove atores locais. Os resultados demonstraram que o Campus Universitário de Bragança, da Universidade Federal do Pará, tem contribuído na formação de capital humano, nos aprimoramentos pessoal e profissional, na geração de emprego e de renda, na valorização da democracia e na preservação ambiental. Conclui-se que a presença da Universidade Federal do Pará, por meio do Campus Universitário de Bragança, promove o fortalecimento da economia da região, contribuindo para o crescimento de empreendimentos e do comércio local, por atrair um crescente número de pessoas ao município.

Palavras-chave: universidade; desenvolvimento regional; capital humano.

 

ABSTRACT

In recent years, several studies have highlighted the impacts of universities on regional development, no longer being seen only as promoters of teaching and research, but also as playing an important role in regional economic growth and development. The article aims to evaluate the contribution and socioeconomic impacts of the Bragança University Campus of the Federal University of Pará to the municipality of Bragança (PA) and surrounding areas. Regarding the methodology, the research is descriptive, using bibliographic research procedures and an explanatory sequential mixed method approach. The research strategy was the case study of the Bragança University Campus of the Federal University of Pará, with the application of questionnaires to 197 alumni and semi-structured interviews with nine local actors. The results demonstrated that the Bragança University Campus of the Federal University of Pará has contributed to the formation of human capital, personal and professional development, job and income generation, the promotion of democracy and environmental preservation. It is concluded that the presence of the Federal University of Pará, through the Bragança University Campus, strengthens the regional economy, local businesses and economic activities by attracting a growing number of people to the municipality.

Keywords: university; regional development; human capital.

 

As Instituições de Ensino Superior (IES) têm desempenhado papéis estratégicos e transformadores nas dinâmicas de desenvolvimento socioeconômico, especialmente em regiões periféricas e historicamente marginalizadas do país. A literatura especializada destaca que o investimento em educação superior contribui diretamente para a formação de capital humano, para o aumento da produtividade do trabalho e para os estímulos à inovação e à geração de renda (Menezes Filho; Oliveira, 2016; Schultz, 1973; Sen, 2000). Paralelamente, as universidades promovem mudanças estruturais, ao ampliar o acesso ao conhecimento e à cidadania, fomentando a mobilidade social e reduzindo as desigualdades regionais (Etzkowitz; Zhou, 2017; Lopes; Almeida, 2025).

Nesse contexto, a presença de universidades no interior do país não se limita à oferta de ensino; trata-se de um mecanismo de transformação territorial, com impactos duradouros. A descentralização de instituições públicas de ensino superior intensifica a movimentação econômica regional, valoriza os saberes locais e fortalece o tecido social, ao mesmo tempo em que incentiva o empreendedorismo, o associativismo e o surgimento de novos arranjos produtivos. Autores como Valero e Van Reenen (2018) e Righi e Ruppenthal (2013) demonstram que os efeitos positivos das universidades transbordam os limites municipais, alcançando regiões vizinhas e criando ecossistemas de inovação.

Na Região Norte, marcada por grandes desafios logísticos, por baixa densidade populacional e por desigualdades históricas, a expansão das universidades federais representa uma alternativa sólida de desenvolvimento regional sustentável. Nesse sentido, a Universidade Federal do Pará (UFPA) desempenha papel de liderança, ao incorporar os compromissos com a Amazônia e com a democratização do acesso ao conhecimento em sua missão institucional.

Com sede em Belém e com campi distribuídos em 11 municípios do estado, a UFPA busca alcançar populações então desassistidas por políticas educacionais robustas. Entre esses campi, destaca-se o de Bragança, situado na Região de Integração (RI) Rio Caeté, no Nordeste Paraense, a qual abriga mais de 532 mil habitantes e apresenta um cenário de acentuados contrastes socioeconômicos. Embora Bragança se destaque na microrregião, a RI como um todo registra um PIB per capita de R$ 9.458,50 e uma renda per capita de apenas R$ 239,51, resultando em 51,23% da população em situação de extrema pobreza, segundo o Barômetro da Sustentabilidade (2022).

Diante da relevância do Campus Universitário de Bragança/UFPA no cenário regional, este estudo delineia-se pela seguinte questão: qual é a contribuição da Universidade Federal do Pará para o desenvolvimento do município de Bragança e adjacências? Mais do que aferir indicadores pontuais, a proposta avalia se a interiorização universitária tem, efetivamente, mitigado desigualdades na Amazônia. Ao articular os eixos econômico, social, político e ambiental, a pesquisa evidencia o papel dessas instituições como vetores estruturantes de transformação socioterritorial em regiões periféricas.

O desenvolvimento regional tem sido amplamente investigado nos cenários nacional (Dantas; Clementino, 2014; Goebel; Miura, 2004; Wanzinack; Signorelli, 2014) e internacional (Goddard; Kempton, 2011; Strauf; Scherer, 2008; Valero; Reenen, 2018; Wang, 2010), que discutem a relação entre as universidades e os impactos no desenvolvimento regional.

Corrêa, Silveira e Kist (2019, p. 12) conceituam esse processo como “[...] histórico, que exige transformação nas bases sociais e econômicas, mudanças estruturais e, sobretudo, uma estratégia construída de forma conjunta entre os diversos atores da região”, refletindo-se em indicadores como poder de compra, investimentos, turismo e dinamismo do mercado de trabalho (Strauf; Scherer, 2008).

Ao qualificar trabalhadores, as instituições elevam a renda média, atraem empresas e aumentam a produtividade, a pesquisa e a capacidade de absorção tecnológica regional (Wang, 2010). Conforme Goddard e Kempton (2011), o acesso local ao ensino superior retém talentos e articula quatro frentes decisivas: inovação científica, promoção de negócios, formação de capital humano e equidade social. Ilustrando essa dinâmica, Goebel e Miura (2004) constataram em Toledo (PR) uma alta de 14,59% no corpo discente (2000–2001), destacando o duplo papel da universidade na capacitação técnica com avanço tecnológico (pesquisa e extensão) e na dinamização do setor de serviços.

Sob o prisma da Teoria do Capital Humano, a educação permite analisar a formação integral e o convívio plural no contexto neoliberal, sem desconsiderar críticas à sua mercantilização (Cabral Neto; Silva; Silva, 2016). Ela gera externalidades positivas para a sociedade ao expandir a consciência ético-política, reduzir vulnerabilidades e fomentar o bem-estar coletivo (Viana; Lima, 2010).

Uma universidade transforma sua região de inserção ao atrair novos investimentos e movimentar recursos financeiros por meio do pagamento de salários a docentes, técnicos e prestadores de serviços, além de gastos com infraestrutura, custeio e manutenção (Goebel; Miura, 2004; Kelly; McNicoll; White, 2014; Righi; Ruppenthal, 2013; Santos, 2014). Ao analisarem uma instituição multicampi no Pampa Gaúcho, Luz, Brizolla e Garcia (2017) explicam que a ampliação do ensino público gratuito, da pesquisa e da extensão levou desenvolvimento científico e tecnológico ao local, retendo os estudantes em sua área de origem.

Na perspectiva de Bonho, Morais e Jung (2018), tanto a chegada de acadêmicos externos quanto as demandas operacionais da própria universidade impulsionam a oferta de bens e serviços na cidade, elevando a renda regional. Esse papel tem orientado políticas públicas para o interior e cidades médias, refletindo-se na interiorização da pós-graduação, onde mais de 50% dos cursos já se localizam fora das capitais e regiões metropolitanas (Theis et al., 2022).

Do ponto de vista macroeconômico, o acréscimo de 10% no número de universidades tende a elevar o PIB per capita regional em 0,4%, superando os custos de expansão (Valero; Reenen, 2018). No Brasil, Souza (1999) identificou um incremento de 36% a 38% no PIB para cada ano adicional de escolaridade média da população economicamente ativa. Dowrick (2003) aponta que cada ano extra de estudo eleva os rendimentos de 5% a 10%; no contexto brasileiro, esse retorno médio chega a 10%, um dos mais altos do mundo, atuando na redução da pobreza e da desigualdade salarial (Castro et al., 2006; Diniz; Diniz, 2019).

Entre 2009 e 2019, o total de graduados no país cresceu 10%, superando a média de 9% da OCDE. Apesar disso, apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos possuíam ensino superior em 2019, frente à média de 45% dos países do bloco, confirmando que maior instrução amplia a empregabilidade e os rendimentos (OCDE, 2020). Corroborando esse impacto, Ramos Filho (2023) concluiu em Alagoas que os produtos das instituições de ensino superior possuem forte correlação mútua e, combinados, apresentam elevado potencial indutor do desenvolvimento regional.

 

 


1

2

3

4

5

6

7

Discordo Totalmente

Discordo Parcialmente

Discordo

Indiferente

Concordo

Concordo Parcialmente

Concordo Totalmente

(DT)

(DP)

(D)

(I)

(C)

(CP)

(CT)

 

Fonte:

 

 

Após a tabulação, os dados foram tratados com técnicas de estatística descritiva. Na primeira e na segunda seções do questionário (perfil pessoal e profissional), foram utilizados cálculos de percentuais para identificar as características sociodemográficas dos egressos da UFPA Campus Bragança. Posteriormente, na análise da terceira seção, em que os egressos emitiram seu nível de concordância (percepção do papel da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local), conforme Costa (2011), os sete pontos da escala de Likert foram organizados em “Concordo” (Fórmula 1) e “Discordo” (Fórmula 2):

 

(Form. 1)

 

 

(Form. 2)

 

Na análise descritiva das dimensões, foi realizada a correlação de Pearson (r), em que adotaram-se os critérios de Marôco (2014), que classifica as correlações em baixa (|r|<0,25), em moderada (0,25≤|r|<0,50), em forte (0,50≤|r|<0,75) e em muito forte (|r|≥0,75). A confiabilidade da escala foi avaliada, por meio do exame de sua consistência interna, pelo cálculo do coeficiente alfa de Cronbach, considerando valores ≥0,70 como indicadores de confiabilidade apropriados para os fatores em estudo, conforme Marôco e Garcia-Marques (2006).

Na análise do coeficiente de variação, que fornece a alteração dos dados obtidos, em relação à média, adotaram-se os critérios de Brito (2019), que classifica os coeficientes de variação em baixa (≤15%) (dados homogêneos), em média (>15% a≤30%) e em alta dispersão (>30%) (dados heterogêneos).

Na segunda fase da pesquisa, foram aplicadas entrevistas semiestruturadas a atores-chave do município de Bragança, que representam cada dimensão proposta no estudo. Os participantes foram escolhidos por critérios de acessibilidade e de conveniência, com amostragem não probabilística. Assim, os selecionados foram: a diretoria administrativa da Clínica Ultrapreven; a Cooperativa Mista dos Agricultores familiares dos Caetés (COOMAC); o Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Município de Bragança (PA); a diretora da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bragança (CDL); uma prestadora de serviços da Prefeitura de Tracuateua (PA); e representantes de algumas secretarias do município de Bragança, como Aquicultura e Pesca, Administração e Defesa Social, Agricultura, Meio Ambiente e Finanças (Quadro 1).

O roteiro da entrevista foi dividido em três partes: a primeira parte se refere a dados de caracterização pessoal e profissional; asegunda parte foi dividida em tópicos, com perguntas de ordem ambiental, econômica, social e política, relacionadas às quatrodimensões do desenvolvimento; e a terceira parte continha perguntassobre aspercepçõesdos participantes, em relação àcontribuição da UFPA para a qualidade de vida do município.

 

Quadro 1 - Características dos entrevistados

Identificação

Sexo

Formação

Ramo de atividade

Município

Entrevistado 1

Feminino

Doutora em Biodiversidade Aquática

Serviço Público

Bragança

Entrevistado 2

Masculino

Mestrando em Impactos Antrópicos da Amazônia

Serviço Público

Bragança

Entrevistado 3

Feminino

Graduada em Letras e em Gestão Hospitalar

Gestora de empresa privada

Bragança

Entrevistado 4

Masculino

Engenheiro Agrônomo

Serviço Público

Bragança

Entrevistado 5

Masculino

Não informado

Serviço Público

Bragança

Entrevistado 6

Feminino

Arquiteta

Associação e Serviço Público

Bragança e Tracuateua

Entrevistado 7

Masculino

Discente em Pedagogia

Cooperativa

Bragança

Entrevistado 8

Masculino

Não informado

Sindicato

Bragança

Entrevistado 9

Masculino

Administrador

Serviço Público

Bragança

 

Após a transcrição das entrevistas, adotou-se como procedimento metodológico a Análise de Conteúdo que, segundo Bardin (2011), compreende um conjunto de técnicas destinadas a sistematizar e subsidiar a interpretação de mensagens, viabilizando a produção de inferências a partir de três etapas fundamentais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos.

Durante a exploração dos dados, executaram-se os processos de codificação e de categorização recomendados pela autora. A codificação consistiu em transformar os relatos em unidades de significado analíticas, sob o critério de fidelidade discursiva ao que foi manifestado pelos participantes. Em seguida, a categorização organizou esses códigos em temas abrangentes segundo o critério de relevância para os objetivos do estudo, permitindo delinear padrões convergentes e fundamentar a interpretação do corpus empírico.

5 A CONTRIBUIÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ PARA O DESENVOLVIMENTO DO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA E ADJACÊNCIAS

O Campus Universitário de Bragança oferece cursos em diversas áreas.No caso dos egressos participantes da pesquisa, seus cursos de formação foram: Pedagogia (28%); Engenharia de Pesca (17,5%); Língua Portuguesa (15,5%); Língua Inglesa (9,5%); Matemática (8,5%); História (7,5%); e outros cursos (13,5%).

A pesquisa mostrou que a UFPA atrai alunos de Bragança, onde está situado o seu campus - que, em conjunto com seus polos Capanema, Viseu e Castanhal, engloba 64% dos discentes - , de municípios adjacentes, como São Miguel do Guamá, Augusto Corrêa e Maracanã (7%), de outros municípios paraenses, como Peixe-boi, Portel, etc., e de municípios de outros estados, como Cândido Mendes (do Maranhão) e Fortaleza (do Ceará).

Os resultados indicam que o Campus Universitário de Bragança exerce um papel relevante na articulação entre formação acadêmica e demandas regionais, evidenciando sua importância na interiorização do ensino superior. A diversidade de cursos ofertados revela não apenas a preocupação com a qualificação profissional em diferentes áreas do conhecimento, mas também um forte compromisso com a formação de professores e com setores estratégicos da economia local. Paralelamente, a abrangência geográfica do público atendido demonstra que a instituição extrapola os limites do município-sede, consolidando-se como um polo educacional de referência, capaz de atrair estudantes de diferentes localidades e contribuir para a dinamização social e educacional da região amazônica.

 

Tabela 1 – Contribuição dos cursos para os egressos

 

Ingresso no mercado de trabalho

Ocupação profissional atual

Aumento do rendimento

Discordam

20%

23%

31%

Concordam

80%

77%

69%

Fonte: elaborada pelos autores, a partir da pesquisa de campo (2021).

 

Quanto à empregabilidade, constatou-se que 66% dos egressos estavam empregados e 34% não estavam trabalhando no momento da coleta de dados. A maioria dos egressos empregados trabalhava em Bragança (37%), Capanema (9%) e Belém (6%). Os demais trabalhavam principalmente em municípios próximos, como Peixe-Boi, Augusto Corrêa, Bonito, Cachoeira do Piriá, Castanhal, Tomé-Açu, Tracuateua, Vigia de Nazaré e Viseu. Infere-se, a partir desses indicadores, que a atuação da UFPA na região Nordeste Paraense cumpre uma função estratégica de integração produtiva. A absorção majoritária de egressos pelo mercado de trabalho em Bragança e municípios adjacentes sugere uma contribuição positiva da universidade para o desenvolvimento regional, validando a tese de que a expansão do ensino superior é fundamental para o incremento da empregabilidade em contextos fora dos grandes centros urbanos.

Nesse sentido, cerca de 80% dos egressos concordaram que o curso no qual se formaram na UFPA contribuiu para seu ingresso no mercado de trabalho. Cerca de 77% responderam que o curso colaborou para a sua profissão atual e 69% concordaram que sua formação na UFPA contribuiu para o aumento dos seus rendimentos salariais. Depreende-se, portanto, que a formação oferecida pela UFPA atua como um diferencial competitivo determinante na trajetória profissional dos egressos. A percepção majoritária de que o curso impulsionou o ingresso no mercado e a elevação de renda evidencia que o investimento em educação superior na região não gera apenas conhecimento acadêmico, mas se traduz em benefícios socioeconômicos tangíveis, consolidando a universidade como uma instância de mobilidade social efetiva.

Quanto às quatro dimensões de desenvolvimento analisadas (ambiental, social, econômica e política), cerca de 37,5% dos egressos acreditam que a universidade promove ações nas quatro dimensões em análise, enquanto somente 6% dos egressos disseram que a UFPA Campus Bragança não promove quaisquer ações nestas dimensões. De acordo com a Tabela 2, o construto social reuniu assertivas que atingiram a maior intensidade de concordância do estudo, com destaque para S3 e S4 (>80%). Nesse construto, destacaram-se as assertivas que envolvem atuações da UFPA no desenvolvimento de projetos de extensão voltados à comunidade local (S3, 15% vs. 85%) e na promoção de acessos àformação e a aprimoramentos pessoal e profissional (S4, 15% vs. 85%), o que revela as ações da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento social do seu município-sede.

Os resultados apontam uma percepção majoritariamente positiva dos egressos quanto à atuação da universidade, indicando que a instituição tem conseguido se posicionar de forma abrangente nas diferentes dimensões analisadas. Observa-se que as ações voltadas ao campo social se destacam com maior reconhecimento, o que demonstra um vínculo consistente entre a universidade e a comunidade em que está inserida. Esse cenário destaca o fortalecimento do papel social da instituição, especialmente por meio de iniciativas que promovem a integração com a população local e ampliam oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. Dessa forma, a universidade não apenas cumpre sua função formativa, mas também se consolida como agente ativo no desenvolvimento social, contribuindo para a melhoria das condições educacionais e para a dinamização do contexto em que atua.

 

Tabela 2 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto social

Código

Assertivas

Discordam

Concordam

S1

Desenvolve projetos de promoção de inclusão social e políticas de cotas

20%

80%

S2

Promove ações para o desenvolvimento do associativismo

32%

68%

S3

Desenvolve projetos de extensão, voltados à comunidade local

15%

85%

S4

Promove acessos à formação e aos aprimoramentos pessoal e profissional

15%

85%

 

Os projetos de extensão contribuem para o desenvolvimento local (Santos, 2014), porém a atuação da UFPA no desenvolvimento do associativismo obteve a quarta maior proporção de discordância. Em contrapartida, com concordância entre 60% e 80%, destacou-se a formação de mão de obra voltada às demandas da região (E3, 20% vs. 80%), em consonância com Dantas e Clementino (2014) e Goddard e Kempton (2011) (Tabela 3).

Embora a universidade desempenhe um papel relevante no desenvolvimento local por meio de projetos de extensão, essa atuação não se distribui de maneira homogênea entre todas as dimensões do desenvolvimento social e econômico. Nota-se um reconhecimento consistente da contribuição institucional na qualificação de mão de obra alinhada às demandas regionais, o que reforça sua função estratégica na formação de profissionais capazes de atender às especificidades do contexto local. Por outro lado, a menor adesão às ações relacionadas ao fortalecimento do associativismo sugere uma lacuna na promoção de iniciativas coletivas e de organização social, aspecto fundamental para o desenvolvimento sustentável das comunidades. Esse contraste revela que, apesar dos avanços, ainda há espaço para ampliar o alcance das ações extensionistas, especialmente no estímulo à participação comunitária e à construção de redes colaborativas.

 

Tabela 3 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto econômico

Código

Assertivas

Discordam

Concordam

E1

Desenvolve projetos para criar oportunidades econômicas naregião

27%

73%

E2

Propõe parcerias com os sistemas produtivoslocais

26%

74%

E3

Forma mão de obra direcionada às necessidades da região

20%

80%

E4

Desenvolve ações para o desenvolvimento do cooperativismo

27%

73%

 

Outros aspectos observados foram os da atuação da UFPA no desenvolvimento de projetos para criar oportunidades econômicas para a região (E1, 27% vs. 73%), da promoção de práticas de valorização da democracia e de suas condutas participativas (P2, 22% vs. 78%) e da promoção de eventos/cursos de conscientização sobre política para a sociedade (P3, 29% vs. 71%) (Tabela 4).

As análises indicam que a universidade vem desempenhando um papel significativo na promoção do desenvolvimento regional, especialmente ao fomentar iniciativas que ampliam oportunidades econômicas e contribuem para a dinamização local. Além disso, destaca-se sua atuação no fortalecimento de valores democráticos, ao incentivar práticas participativas e promover espaços de reflexão e debate sobre questões políticas. Esse conjunto de ações indica um compromisso institucional que vai além da formação acadêmica, alcançando também a formação cidadã e o engajamento social. Ainda assim, a variação nos níveis de reconhecimento dessas iniciativas sugere que há potencial para ampliar e consolidar tais ações, de modo a fortalecer ainda mais o impacto da universidade tanto na esfera econômica,política e social.

 

Tabela 4 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto político

Código

Assertivas

Discordam

Concordam

P1

Desenvolve parcerias com órgãos públicos no âmbito do desenvolvimento

26%

74%

P2

Promove a valorização da democracia e dassuas práticas participativas

22%

78%

P3

Promove eventos/cursos de conscientização sobre política para a sociedade

29%

71%

P4

Desenvolve projetos de pesquisa e de extensão sobre gestão/políticas públicas

28%

72%

 

Quanto àdimensão ambiental, o resultado obtido na assertiva sobre a participação da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento deprojetos voltados ao meio ambiente e àpreservação ambiental ficou no estrato superior da escala (A2, 24% vs. 76%) (Tabela 5).

 

Tabela 5 – Papéis da UFPA Campus Bragança no desenvolvimento local, no aspecto ambiental

Código

Assertivas

Discordam

Concordam

A1

Promove práticas de coleta seletiva de lixo e de descarte de resíduos

38%

62%

A2

Desenvolve projetos voltados ao meio ambiente e àpreservação ambiental

24%

76%

A3

Desenvolve programas de conscientização contra poluições sonora e do ar

53%

47%

A4

Trata do combate ao desperdício de recursos hídricos

39%

61%

 

Constatou-se que a universidade desenvolve poucos programas de conscientização contra a poluição sonora e do ar (53% discordam da afirmação). Apesar de a maioria indicar práticas de coleta seletiva e descarte de resíduos (A1, 38% vs. 62%) e de combate ao desperdício hídrico (A4, 39% vs. 61%), os indicadores apresentaram baixos níveis de concordância. Os dados corroboram Santos (2014), que identificou a dimensão ambiental como praticamente inexistente na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Na dimensão econômica, a assertiva sobre parcerias com o sistema produtivo local (E2, 26% vs. 74%) soma-se às ações para o cooperativismo (E4, 27% vs. 73%) — ambas no estrato superior, corroborando Barbiero (2012). A universidade demonstra, assim, maior inserção regional ao articular-se com o setor produtivo e incentivar a organização coletiva.

A análise entre variáveis revelou correlações muito fortes e significativas (a 5%) entre as dimensões social e econômica (r=0,761) e social e política (r=0,768) (Tabela 6). Os resultados indicam que há relações intrínsecas entre estas dimensões e que ações de desenvolvimento social, por exemplo, podem estar associadas positivamente ao desenvolvimento econômico e/ou político. Além disso, foram observadas correlações fortes (com r entre 0,50 e 0,75) e significativas (a 5%) entre as dimensões ambiental, social e política e entre as dimensões econômica e política.

Dessa maneira, constata-se o protagonismo da universidade nas diferentes dimensões do desenvolvimento, evidenciando avanços mais consistentes em algumas áreas e fragilidades em outras. No campo ambiental, observa-se uma presença ainda incipiente de iniciativas voltadas à conscientização e ao uso sustentável dos recursos, o que sugere que essa dimensão não tem recebido a mesma atenção institucional que as demais. Mesmo diante de algumas práticas existentes, sua percepção limitada indica a necessidade de maior investimento e visibilidade em ações ambientais.

Por outro lado, na dimensão econômica, a universidade demonstra maior inserção no contexto regional, especialmente ao estabelecer conexões com o sistema produtivo e incentivar formas de organização coletiva, o que reforça seu papel no fortalecimento das dinâmicas locais de produção e trabalho. Além disso, a análise das relações entre as dimensões aponta para uma forte interdependência, sobretudo entre os aspectos sociais, econômicos e políticos, indicando que avanços em uma dessas esferas tendem a repercutir positivamente nas demais. Esse cenário evidencia que o desenvolvimento promovido pela universidade é multifacetado, porém ainda demanda maior equilíbrio, especialmente com a incorporação mais efetiva da dimensão ambiental às suas práticas institucionais.

A relação entre as dimensões social e política corrobora os resultados de Gruginskie, Genro e Miorando (2018), que obtiveram resultados positivos quanto à contribuição das universidades públicas na formação de sujeitos políticos, a partir do diálogo com a sociedade. Quanto à relação entre as dimensões ambiental, social e política, essa foi observada no estudo de Rampazzo (1996), em que se afirma a necessidade de tentar harmonizar objetivos socioeconômicos e ambientais, com melhores definições dos usos de recursos naturais e das finalidades de crescimento.

 

Tabela 6 – Análise das dimensões de desenvolvimento

Dimensões

Ambiental

Econômica

Social

Política

 

Ambiental

(0,894)

 

 

 

 

Econômica

0,697*

(0,873)

 

 

 

Social

0,659*

0,761*

(0,894)

 

 

Política

0,676*

0,703*

0,768*

(0,903)

 

Número de variáveis

4

4

4

4

 

Média

4,358

4,945

4,873

5,234

 

Desvio Padrão

1,4862

1,3620

1,3164

1,4258

 

Coeficiente de Variação

34%

28%

27%

27%

 

Moda

4,5

5

6,25

4,75

 

Mínimo

1

1

1

1

 

Máximo

7

7

7

7

 

 

Nota: * Significativa (a 5%)

 

Quanto à confiabilidade da escala de consistência interna, os resultados foram: ambiental=0,894; social=0,894; econômica=0,873; e política=0,903, indicandoalto nível de consistência interna. Os coeficientes de variação dasdimensõesambiental, econômica, social e política foram 34%, 28%, 27% e 27%, respectivamente, a partir dos quaisse pode concluir que os dados dasdimensõessocial, política e econômica, por possuírem menor dispersão relativa, apresentam maior homogeneidade do que os referentes à dimensão ambiental.

Os resultados revelam uma universidade que cumpre com excelência seu papel de transformadora social e política, mas que ainda falha em integrar a sustentabilidade ambiental como uma prática cotidiana e visível. A forte correlação entre os eixos social e político sugere que a UFPA em Bragança não apenas "forma profissionais", mas contribui para a consolidaçãodo capital social necessário para o desenvolvimento regional na Amazônia. Essa lacuna na dimensão ambiental reflete o antagonismo ainda existente entre o discurso do desenvolvimento econômico e a qualidade ambiental, onde o desafio reside em realizar uma abordagem global da questão sem se afastar das especificidades regionais. Conforme aponta Rampazzo (1996), a aplicação de alternativas ecológicas depende da superação de interesses privados e da internalização de custos, o que exige uma sociedade consciente e organizada capaz de exercer poder sobre essas dinâmicas. Assim, para que a sustentabilidade deixe de ser um elemento periférico, é urgente que a instituição promova inserções humanas compatíveis com a potencialidade dos recursos e com a fragilidade dos ecossistemas locais.

 

6 PERCEPÇÕES DOS ATORES LOCAIS, EM RELAÇÃO ÀCONTRIBUIÇÃO DO CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE BRAGANÇA, DA UFPA, AO MUNICÍPIO DE BRAGANÇA

 

Ao analisar a contribuição do Campus Universitário de Bragança à cidade, a partir das perspectivas dos atores locais, foi possível constatar a importância da instituição no fomento ao desenvolvimento de sua região de inserção. Dessa maneira, quanto àassertiva sobre a atuação da UFPA no desenvolvimento de projetos de extensão voltados à comunidade local, sete entrevistados confirmaram que a UFPA promove estas ações. O Entrevistado 6 destacou que isto ocorre “[...] principalmente nas áreas de reserva extrativista [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 6), enquanto o Entrevistado 2 enfatizou: “Sim, extensão tem bastante. O que a UFPA daqui tem feito é a pesquisa em comunidades, após a pesquisa, voltamos à comunidade para apresentarmos os resultados[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 2). Nesse sentido, a UFPA destaca que, por meio de suas atividades de extensão, é possível levar conhecimentossobre questões ambientais, étnicas e culturaisàs comunidades, mesmo para as que não utilizam a universidade para o ensino superior (UFPA, 2016).

Assim, a atuação da UFPA em projetos de extensão demonstra um compromisso efetivo com a aproximação entre universidade e comunidade, demonstrando a relevância do conhecimento acadêmico aplicado a contextos sociais específicos. Essa relação não apenas fortalece os vínculos locais, mas também permite que as demandas da população influenciem a agenda de pesquisa, criando um ciclo de retorno que valoriza tanto a produção científica quanto o desenvolvimento comunitário. Além disso, a presença de projetos em áreas estratégicas, como reservas extrativistas, indica uma preocupação institucional com o equilíbrio entre preservação ambiental e promoção do bem-estar social, reforçando a ideia de que a extensão universitária pode ser um instrumento para integrar educação, sustentabilidade e transformação social.

De acordo com o documento Relatório de Gestão do Campus Universitário de Bragança da UFPA (UFPA, 2017), a extensão estreita os vínculos com a sociedade e confere maior materialidade ao papel institucional da universidade, desenvolvendo uma constante relação de aprendizagem com a comunidade.

Quanto perguntado sobre a promoção de acessos à formação e aos aprimoramentos pessoal e profissional, pela UFPA, o Entrevistado 1 enfatizou:

“Nós somos referência nas áreas, como genética, por exemplo, ecologia de manguezal. Então, o campus tem esse investimento em formação. Têm cursos de mestrado e doutorado, que seria esse melhoramento profissional [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).

 

De acordo com o Entrevistado 9, a UFPA promove parcerias com órgãos da região: “[...] hoje nós temos uma parceria da UFPA com a secretaria de educação, se refere a parte de formação de professores. Temos doutores, não precisando trazer de fora, trabalhamos com os profissionais daqui da UFPA” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 9). Nesse sentido, deve-se frisar que investimentos em capital humano geram retornos econômicos, tanto para a sociedade em geral quanto para os individuos (Viana; Lima, 2010).

Sobre a atuação da UFPA na formação de mão de obra direcionada às necessidades da região, apesar de a maioria responder que sim, houve divergências nas respostas dos entrevistados.

“Eu acho que não é um problema só de Bragança, mas eu acho que é um problema de vários campi [...]. Eu acho que a academia, como um todo, tem nos preparados para sermos acadêmicos, e não para sermos profissionais [...]. Não temos uma formação que nos permita ter maior essa noção de realidade e necessidade social. Eu acho que a gente acaba se preocupando mais com as pesquisas, publicações, currículo, mas, no geral, as tecnologias sociais e desenvolvimento, contato com as comunidades, e todas essas questões nós não somos preparados [...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).

 

O Entrevistado 9, por sua vez, observou que:

“[...] quanto a formação de professores, tem história, pedagogia, biologia que é uma referência no país, é bem diferenciado, tem também a engenharia de pesca que ajuda muito na nossa região, o estudo na nossa área costeira[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 9).

 

Assim, os resultados da investigação vão ao encontro do que sustentam Bonho, Morais e Jung (2018, p. 16), que observaram que as universidades oferecem vastas oportunidades de formação e de qualificação profissional aos alunos, com as próprias instituições de ensino utilizando esta mão de obra, o que contribui para o desenvolvimento local.

Em relação ao aspecto político, o Entrevistado 5 ressaltou a importância da democracia: “[...] o que vale na democracia é a opinião de cada um, que na democracia não tem o mais sábio, o mais inteligente, o melhor. O que tem são pessoas capazes de contribuir com a sociedade[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 5).Os resultados da dimensão política corroboram as pesquisas de Gruginskie, Genro e Miorando (2018) e de Valero e Van Reenen (2018).

Sobre as ações da UFPA voltadas ao meio ambiente, o Entrevistado 3 afirmou: “Desconheço práticas de coleta seletiva de lixo[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 3), enquanto o Entrevistado 1:

“[...] apenas alguns grupos que trabalham educação ambiental, mas não que a universidade, principalmente dentro do campus promova coleta seletiva ou descarte de resíduos, inclusive, parte do meu doutorado foi aqui em Bragança, e eu tinha alguns reagentes que precisava descartar, mas não encontrava um local adequado para isso[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 1).

 

Na Resolução n.º 636, de 20 de dezembro de 2007, art. 3º, parágrafo único, inciso VI, do Campus Universitário de Bragança, consta que a UFPA buscará “[...] desenvolver programas de educação ambiental que visem a conscientização da sociedade” (UFPA, 2007). Nesse sentido, a Educação Ambiental pode proporcionar conscientização àsociedaderelativamente às atividades humanas e suas consequências para o meio ambiente (ROSA et al., 2015). Para Rampazzo (1996), o problema não está na escolha entre crescimento e qualidade ambiental, mas em buscar a harmonização (apesar das dificuldades) entre os objetivos socioeconômicos e ambientais.

Depreende-se que a ausência de políticas claras de gestão de resíduos e a falta de estruturas adequadas para o descarte de materiais específicos revelam um descompasso entre os projetos isolados de educação ambiental e a gestão institucional de práticas cotidianas de sustentabilidade. Essa constatação sugere que, embora haja iniciativas pontuais de conscientização, ainda há um espaço considerável para que a instituição incorpore medidas sistemáticas e visíveis de responsabilidade ambiental.

Quanto à contribuição da UFPA para a melhoria da qualidade de vida no município, os entrevistados concordaram que ter um campus da UFPA no município movimentou a economia e, também, atraiu pessoas de outras regiões. O Entrevistado 3 destacou, quanto a isto: “Formação traz mudança cultural e melhora a economia, pois incentiva pessoas de outros municípios a estudarem em Bragança[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 3),enquanto o Entrevistado 7 ressaltouque a UFPA:

“Contribui na educação. Movimenta a economia, pois traz muitos estudantes e professores para a região. Há também novas pesquisas na área da Biologia e Pesca, promovendo a preservação e reprodução de peixes e caranguejos. Há estudos também voltados para os rios da área costeira, influenciando muito na economia por conta do pescado[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 7).

 

O Entrevistado 2 fez uma observação crítica sobre a falta de estudos ligados àagricultura: “[...] eu acho deficitário essa parte da agricultura que é algo que é o potencial da cidade, e a gente tem poucas pesquisa e estudos nessa área por não haver curso na área na universidade[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 2),ao passo que o Entrevistado 7 colocou: “Na agricultura, não há cursos, apenas algumas pesquisas isoladas (laboratórios) com trabalhos em agricultura, projetos específicos[...]” (informação obtida por e-mail do Entrevistado 7).

Nesse viés, Ramos Filho (2023) afirma que as universidades encontram-se desconectadas das demandas regionais, gerando descompasso entre a formação ofertada e as necessidades sociais — cenário agravado por currículos defasados frente às exigências contemporâneas.

A análise revela lacunas no suporte ao potencial agrícola da região. A ausência de cursos específicos demonstra que a aproximação com o setor produtivo rural permanece incipiente. Diante dessa carência, recomenda-se expandir a atuação do campus para as Ciências Agrárias, consolidando a UFPA como indutora de um desenvolvimento articulado às realidades produtivas da Amazônia.

 

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O presente estudo avaliou os impactos socioeconômicos da UFPA em Bragança e regiões adjacentes, confirmando o seu papel estratégico no desenvolvimento regional. O campus fomenta a qualificação do capital humano, contribui para a geração de emprego e dinamiza o comércio local através da atração de estudantes e profissionais. Esse protagonismo evidencia-se na absorção de diplomados em áreas estratégicas - como as licenciaturas, a Engenharia de Pescas e a Biologia, essenciais para a comunidade piscatória e a conservação da zona costeira.

Teoricamente, a pesquisa avança ao validar um modelo de análise integrada das dimensões econômica, social, política e ambiental em um contexto de periferia amazônica. Demonstrou-se que o impacto universitário transcende indicadores financeiros isolados; a forte correlação encontrada entre as dimensões social e política (r=0,768), por exemplo, fornece evidências de que a universidade fortalece o capital social e a governança local, elementos vitais para a sustentabilidade de territórios distantes dos grandes centros urbanos.

Contudo, a análise revelou lacunas críticas. A dimensão ambiental registrou as maiores discordâncias, expondo um descompasso entre discursos acadêmicos e práticas cotidianas (como coleta seletiva e combate às poluições sonora e do ar). No âmbito social, o baixo estímulo ao associativismo indica distanciamento das entidades de classe. Para mitigar esses gargalos, recomenda-se institucionalizar programas de logística verde, fortalecer parcerias com prefeituras e criar fóruns permanentes com associações e produtores rurais, fomentando a inovação social.

Por fim, observa-se a necessidade de diversificar a oferta de cursos para atender às vocações regionais negligenciadas, como o setor agrícola, evitando a migração de jovens para outros centros. Sugere-se que estudos futuros aprofundem a análise do retorno econômico da educação no desenvolvimento regional e incorporem a dimensão cultural ao modelo de avaliação. Ampliar o diálogo com uma gama maior de atores locais permitirá consolidar, de forma ainda mais robusta, o papel das Instituições de Ensino Superior como agentes fundamentais de transformação na Amazônia.

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[1] A escala Likert é usada principalmente em pesquisas de mercado, para entender as opiniões e as atitudes de indivíduos, em relação a um produto ou serviço (Likert, 1932). Consistindo em um conjunto de afirmações,que buscam medir a reação de uma pessoa em três, cinco, seteou novecategorias, nas quais o indivíduo pode manifestar seu grau de concordância ou de satisfação, em relação a um produto ou serviço.