Diego Neves de Sousa

https://orcid.org/0000-0003-3124-5150

Doutor em Desenvolvimento Rural. Embrapa Pesca e Aquicultura – Brasil. diego.sousa@embrapa.br.

Marcia Mascarenhas Grise

https://orcid.org/0000-0002-4518-0725

Doutora em Agronomia. Embrapa Pesca e Aquicultura – Brasil. marcia.grise@embrapa.br

Marcelo Konsgen Cunha

https://orcid.org/0009-0007-1007-5005

Mestre em Zootecnia. Embrapa Pesca e Aquicultura – Brasil. marcelo.cunha@embrapa.br

Claudio Franca Barbosa

https://orcid.org/0000-0003-2389-8733

Mestre em Zootecnia. Embrapa Pesca e Aquicultura – Brasil. claudio.barbosa@embrapa.br

Pedro Henrique Rezende de Alcantara                                   https://orcid.org/0009-0008-8835-938X

Mestre em Zootecnia. Embrapa Pesca e Aquicultura – Brasil. pedro.alcantara@embrapa.br

 

Brazilian beef cattle farming generally operates with productivity levels far below its potential. This is largely due to the limited or improper use of currently available technologies and knowledge. The ABC Livestock Program (Programa ABC Corte), launched in 2017, aims to address this issue by continuously training technicians who, in turn, apply their acquired knowledge to the areas of producers under their assistance. To demonstrate the feasibility of intensifying cattle production on pastures is the goal of the Program. The Ambitec-Agro methodology was employed to evaluate the socioeconomic and environmental impacts of the ABC Livestock Program in the state of Tocantins. During the 2022/23 season, areas involved in the program achieved an average productivity of 33.29 @/ha/year, approximately five times the national average. Each hectare adopting the program's model generated a land-sparing effect estimated at 4.04 ha, highlighting the project's positive environmental impact. The Ambitec-Agro assessment highlighted significant positive impacts, with scores emphasizing economic (5.49), social (3.99) and environmental (3.45) aspects. Beneficiaries reported positive outcomes such as improved animal welfare, increased property value, greater water-use efficiency, the dedication of program coordinators, and enhanced soil quality, reinforcing the ABC Livestock Program's feasibility from multiple perspectives.

Keywords: Technology transfer, rural extension, public policies, rural development, cattle farming.

O desafio atual da agropecuária é suprir a crescente demanda por alimentos, fibras e energia sem expandir áreas cultiváveis e minimizando o impacto ambiental. No Brasil, o aumento da produção agrícola ocorreu, historicamente, pela ocupação de grandes extensões de terra. Durante décadas, o uso de técnicas como o fogo e o preparo convencional do solo resultou na degradação de áreas, afetando tanto o solo quanto os recursos hídricos, além de contribuir significativamente para a emissão de gases de efeito estufa (Grise et al., 2019, 2025; Sotta et al., 2021).

No Tocantins, apesar da diversidade na produção agrícola, a bovinocultura de corte destaca-se como um dos setores mais relevantes do agronegócio, desempenhando um papel central nas exportações do estado. Com uma área de pastagem de 8.398.062,53 hectares, a atividade enfrenta desafios de produtividade e rentabilidade e ainda não atinge seu pleno potencial. Um dos fatores que contribuem para isso é o fato de que aproximadamente 5.000.000,00 hectares dessas pastagens estão em algum nível de degradação (IBGE, 2017; Governo do Tocantins, 2021; Alcântara et al., 2020).

 A recuperação de pastagens degradadas é um dos eixos centrais do Plano Setorial para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, conhecido como Plano ABC. Durante a COP-15, o Brasil assumiu compromissos voluntários para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs), os quais foram formalizados na Política Nacional sobre Mudanças do Clima (Lei nº 12.187/09) e regulamentados pelo Decreto nº 7390/10 (BRASIL, 2018).

O Plano ABC abrange diversas ações, como capacitação e fomento para informar técnicos e produtores rurais, estratégias de transferência de tecnologia, pesquisa, fortalecimento dos serviços de assistência técnica e extensão rural, além de incentivos econômicos e linhas de crédito rural (Zimmer et al., 2012). Essas iniciativas visam a adoção de tecnologias de produção sustentáveis, que são reconhecidas como mitigadoras das mudanças climáticas globais (BRASIL, 2018).

A assistência técnica de qualidade é um dos pilares fundamentais para a correta adoção das tecnologias promovidas pelo Plano ABC, gerando benefícios tanto técnicos quanto econômicos para os sistemas de produção recomendados pelo Plano e pela Política Nacional sobre Mudanças Climáticas (Grise et al., 2019).

No estado do Tocantins, especificamente, o Plano Estadual de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC-TO) foi elaborado em outubro de 2013 com a colaboração de diversas instituições ligadas ao agronegócio. O plano foi oficialmente instituído pelo Decreto nº 5.000, de 21 de fevereiro de 2014. Desde então, sua implementação tem sido monitorada pelo Grupo Gestor Estadual do Plano ABC (GG ABC TO), que é coordenado pela Secretaria Estadual de Agricultura e Pecuária (Seagro) (Grise et al., 2020).

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), como uma das instituições participantes do Plano ABC TO, tem liderado diversos projetos voltados para a implementação das ações previstas nesse plano estadual. Um dos principais projetos deste portfólio é o ABC Corte, iniciado em 2017, com foco em intensificar a produção de carne bovina em pastagens, aumentando a produtividade por unidade de área e de tempo, com ênfase na fase de recria de gado de corte (Grise et al., 2020; Barbosa et al., 2021).

O projeto tem uma rede de técnicos multiplicadores que são capacitados de forma contínua. Os técnicos, sob a supervisão de um colaborador da Embrapa, aplicam a metodologia do ABC Corte em uma ou mais áreas em propriedades rurais por eles assistidas. Essas áreas são denominadas Unidades de Referência Tecnológica (URTs). Nas URTs, práticas como o manejo adequado do pastejo, a correção e adubação de pastagens, a suplementação animal e técnicas de gestão rural são empregadas de acordo com o diagnóstico do sistema de produção e dos objetivos estipulados. Há um acompanhamento da produção e das ações nas URTs e, sempre que necessário, ajustes são feitos. Ao fim do ciclo de um ano os dados gerados pelas URTs são apresentados, validados e analisados, gerando indicadores técnicos e econômicos.

Assim, o ABC Corte configura-se como uma iniciativa de transferência de tecnologia, coordenada pela Embrapa e executada em parceria com instituições de assistência técnica, tanto públicas quanto privadas, no estado do Tocantins (Grise et al., 2020; Barbosa et al., 2021).

Na formação dessa rede, é adotado um processo de capacitação continuada, que se baseia nas metodologias de Redes de Referência (Miranda; Doliveira, 2005) e Treino & Visita (Benor; Harrisson, 1977; Domit et al., 2007). As tecnologias implementadas estão em consonância com os objetivos do Plano ABC, buscando tanto a recuperação de pastagens degradadas quanto a diminuição da pressão antrópica sobre áreas de vegetação nativa (Zimmer et al., 2012; Alcântara et al., 2019).

Desde 2017, várias ações têm sido realizadas para consolidar as redes de técnicos multiplicadores e as URTs implantadas no ABC Corte, no Tocantins. As principais iniciativas incluem: (i) capacitação contínua de técnicos, (ii) implantação de URTs de sistemas de produção intensiva de carne em pastagens, (iii) difusão das tecnologias ABC através de eventos como dias de campo, palestras e visitas técnicas e (iv) estímulo à adoção das tecnologias pelo setor produtivo regional. Essas ações visam aumentar a eficiência produtiva, recuperar pastagens degradadas e promover uma agropecuária sustentável, alinhada ao Plano ABC e à redução de emissões de gases de efeito estufa (Grise et al., 2020; Barbosa et al., 2021).

Com isso, consultores e extensionistas participam de encontros técnicos coordenados pela Embrapa, nos quais são apresentados e debatidos aspectos da bovinocultura de corte em pastagens visando a intensificação sustentável da bovinocultura de corte em pastagens. Esses técnicos multiplicadores implementam as tecnologias nas propriedades de seus clientes, com acompanhamento da Embrapa, que oferece suporte técnico, mas não financeiro. Como resultado, observa-se o chamado “efeito poupa terra”, pois os sistemas intensivos permitem a produção de mais arrobas em menor área e tempo.  A título de exemplo, se 5% das pastagens do Tocantins, com média atual de 4@.ha-1.ano-1, forem convertidas para os moldes das URTs do ABC Corte, onde se obtém 26,45@.ha-1.ano-1, o efeito poupa terra pode liberar 2.356.706 hectares (Alcântara et al., 2019).

Os principais beneficiários da solução tecnológica do ABC Corte incluem uma variedade de partes interessadas, mas principalmente os técnicos, que passam a ter os resultados positivos de seus trabalhos de ATER e consultorias divulgados e ampliados, e os produtores rurais, beneficiários diretos do resultado em suas propriedades. Eles adotam as práticas e tecnologias do programa para melhorar a produtividade, a qualidade da carne e a sustentabilidade de suas operações.

 Há a redução das emissões de gases de efeito estufa e a promoção de práticas sustentáveis com a adoção do ABC Corte. Esses avanços estão diretamente alinhados com a consecução das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à agricultura sustentável, à ação climática e à conservação da vida terrestre (Grise et al., 2023). O objetivo deste artigo é avaliar os impactos socioeconômicos e ambientais do programa ABC Corte no estado do Tocantins.     

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

1. Mudança no uso direto da terra

S

4,87

5,61

5,24

2. Mudança no uso indireto da terra

S

6,37

2,06

4,22

3. Consumo de água

S

8,40

6,80

7,60

4. Uso de insumos agrícolas

S

0,20

2,10

1,15

5. Uso de insumos veterinários e matérias-primas

S

3,60

2,60

3,10

6. Consumo de energia

S

2,70

6,40

4,55

7. Geração própria, aproveitamento, reuso e autonomia

S

1,19

1,18

1,19

8. Emissões à atmosfera

S

1,58

2,22

1,90

9. Qualidade do solo

S

4,76

9,00

6,88

10. Qualidade da água

S

1,28

1,72

1,50

11. Conservação da biodiversidade e recuperação ambiental

S

1,09

2,70

1,90

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

12. Qualidade do produto

S

0,55

2,25

1,40

13. Capital social

S

2,92

5,92

4,42

14. Bem-estar e saúde animal

S

10,35

9,05

9,70

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

15. Capacitação

S

4,95

6,46

5,71

16. Qualificação e oferta de trabalho

S

0,70

3,09

1,89

17. Qualidade do emprego/ocupação

S

1,60

1,95

1,78

18. Oportunidade, emancipação e recompensa equitativa entre gêneros, gerações e etnias

S

1,62

2,37

1,99

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

19. Geração de Renda do estabelecimento

S

5,60

4,80

5,20

20. Valor da propriedade

S

6,51

9,55

8,03

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

21. Segurança e saúde ocupacional

S

1,81

4,05

2,93

22. Segurança alimentar

S

4,56

7,68

6,12

Critérios

Se aplica (Sim/Não)

Média

Tipo 1 (*)

Média

Tipo 2 (**)

Média

Geral

23. Dedicação e perfil do responsável

S

7,41

7,10

7,26

24. Condição de comercialização

S

1,76

2,27

2,02

25. Disposição de resíduos

S

0,20

1,20

0,70

26. Gestão de insumos químicos

S

5,17

5,30

5,24

27. Relacionamento institucional

S

5,52

4,07

4,80

Tipo de Impacto

Média Tipo 1 (*)

Média Tipo 2 (**)

Média Geral

Índice de Impacto Econômico

5,30

5,68

5,49

Índice de Impacto Social

3,41

4,56

3,99

Índice de Impacto Ambiental

3,04

3,86

3,45

 

 

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