Performance
indicators for Smart Cities: a comparative approach between Brazilian standards
and rankings
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Rayana
Carolina Conterno https://orcid.org/0009-0002-4879-2775 |
Mestra
e Doutoranda em Desenvolvimento Regional. Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, Campus Pato Branco - Brasil. rayana_arq@hotmail.com / rayanac@utfpr.edu.br |
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Bruno Guaringue Trindade https://orcid.org/0000-0003-1780-071X |
Mestre
em Engenharia de Produção e Sistemas. Instituto Federal do Paraná - Brasil. bruno.guaringue@ifpr.edu.br |
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Christian Carlos Souza Mendes https://orcid.org/0000-0003-2871-9968 |
Doutor
em Planejamento e Governança Pública. Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, Campus Curitiba - Brasil. ccsm@utfpr.edu.br |
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Christian
Luiz da Silva https://orcid.org/0000-0002-9365-6257 |
Doutor
em Engenharia de Produção. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus
Curitiba - Brasil. christiansilva@utfpr.edu.br |
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Gilson
Ditzel Santos https://orcid.org/0000-0002-7839-2281 |
Doutor
em Administração. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Pato
Branco - Brasil. ditzel@utfpr.edu.br |
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Mauro
Fernando Normberg Böhm https://orcid.org/0000-0001-6259-8050 |
Mestre
em Arquitetura e Urbanismo, Doutorando em Desenvolvimento Regional.
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Pato Branco - Brasil. mauro.bohm@ifsc.edu.br |
RESUMO
O crescimento acelerado dos centros urbanos nas últimas décadas tem
ampliado a demanda por soluções voltadas ao desenvolvimento urbano inteligente
e sustentável. Este estudo analisa e compara os indicadores de desempenho da
norma ABNT NBR ISO 37122:2020 com os rankings Connected Smart Cities
(CSC) e European Smart Cities (ESC), com foco em identificar convergências,
lacunas e limites conceituais na avaliação de Cidades Inteligentes (CI). No
âmbito metodológico, realizou-se uma análise documental dos instrumentos, com
mapeamento dos indicadores por eixo temático e verificação de correspondência
entre a norma e os rankings, a partir de uma matriz comparativa
construída com base na revisão de literatura. Os resultados mostram que a norma
apresenta foco predominantemente tecnicista e operacional, com forte ênfase em
infraestrutura, serviços e uso de TICs, mas com menor cobertura de dimensões
como Inovação, Empreendedorismo, Governança e aspectos sociais. Em contraste,
os rankings CSC e ESC incorporam uma visão mais multidimensional da
cidade, ainda que com diferenças metodológicas e níveis distintos de
detalhamento, contribuindo para ampliar a compreensão do fenômeno urbano e
evidenciar a necessidade de complementaridade entre instrumentos de avaliação.
Palavras-chave: planejamento urbano; sustentabilidade
urbana; indicadores de desempenho; norma brasileira; rankings de
cidades inteligentes.
ABSTRACT
The accelerated growth of urban centers in recent
decades has increased the demand for intelligent and sustainable urban
development solutions. This study analyzes and compares the performance
indicators of the Brazilian standard ABNT NBR ISO 37122:2020 with the Connected
Smart Cities (CSC) and European Smart Cities (ESC) rankings, focusing on
identifying convergences, gaps, and conceptual limitations in the assessment of
Smart Cities (SC). Methodologically, a documentary analysis of these instruments
was conducted, involving mapping of indicators by thematic axes and
verification of correspondences through a comparative matrix built from a
literature review. The results reveal that the standard adopts a predominantly
technicist and operational focus, with strong emphasis on infrastructure,
services, and ICT use, but limited coverage of dimensions such as Innovation,
Entrepreneurship, Governance, and social aspects. In contrast, the CSC and ESC rankings
offer a more multidimensional urban perspective—despite methodological
differences and varying levels of detail—contributing to a broader
understanding of urban phenomena and highlighting the need for complementary
evaluation tools.
Keywords: urban planning; urban sustainability; performance
indicators; Brazilian standard; smart city rankings.
Recebido em 20/11/2024. Aprovado em 25/03/2026. Avaliado pelo sistema
double blind peer review. Publicado
conforme normas da ABNT.
https://doi.org/10.22279/navus.v18.2054
1 INTRODUÇÃO
O acelerado crescimento das cidades nas
últimas décadas tem suscitado preocupações entre os gestores municipais.
Conforme indicado pelo Relatório Mundial das Cidades 2022, da Organização das
Nações Unidas (ONU), cerca de 55% da população global já reside em áreas
urbanas, e estima-se que esse número alcançará 68% até 2050. Na América Latina
e no Caribe, essa projeção aumenta para 81%, enquanto, no Brasil, deve chegar a
85%, evidenciando a intensa urbanização nessas regiões (ONU, 2022).
Esta tendência inequívoca de concentração
das populações mundiais gera desafios críticos, como a deficiência de
infraestrutura, habitação precária, problemas de saneamento, mobilidade urbana,
segurança pública e poluição. Desta forma, o modelo de crescimento urbano
insustentável tende a agravar ainda mais essas questões sociais e ambientais.
Nesse contexto, o conceito de Cidades Inteligentes (CI) se apresenta como uma
alternativa viável, oferecendo soluções tecnológicas inovadoras que integram
diferentes aspectos da vida urbana, com o objetivo de promover a
sustentabilidade e melhorar a qualidade de vida.
Para Caragliu, Del Bo e Nijkamp (2011), o
modelo de CI se destaca pela promoção do desenvolvimento urbano com eficiência
administrativa e econômica, inclusão social, inovação tecnológica, economia
criativa e sustentabilidade social e ambiental. Bej et al. (2021)
enfatizam a importância de uma infraestrutura integrada e sustentável,
abarcando dimensões físicas, sociais, econômicas e institucionais. Batty et
al. (2012) complementam que o conceito de CI se apoia fortemente no uso de
Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) para monitorar, planejar e
otimizar o desenvolvimento urbano, melhorando a qualidade de vida em tempo
real.
Assim, para avaliar a inteligência e a
sustentabilidade no panorama das cidades, surgem diversas classificações e
certificações internacionais. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT) lançou a norma "ABNT NBR ISO 37122:2020 - Cidades e
comunidades sustentáveis —
Indicadores para cidades inteligentes", que busca estabelecer indicadores
globais para serviços
urbanos e qualidade de vida. Sua aplicação requer alinhamento com normas e legislações nacionais, abrangendo definições, métricas e métodos específicos para fornecer indicadores
e adaptando-se ao contexto brasileiro.
Elucidando esta perspectiva, evidencia-se a
necessidade de contar com indicadores capazes de avaliar o desempenho das CI.
No entanto, a situação atual é marcada pela falta de padronização ou de
comparabilidade entre diferentes escalas urbanas nos indicadores existentes.
Portanto, este artigo propõe uma análise comparativa de indicadores com o
objetivo de aprimorar a compreensão e delimitação do conceito de CI. A
investigação confronta os indicadores estabelecidos da norma brasileira com os
do ranking Connected Smart Cities (CSC), criado pela Urban
Systems e Necta, e do ranking European Smart Cities (ESC),
versão 3.0 de 2014, utilizado como referência para cidades médias europeias.
A escolha dos rankings fundamenta-se
em sua relevância e complementaridade para a análise proposta. Enquanto o CSC é
amplamente reconhecido no Brasil por abordar o conceito de CI sob uma
perspectiva nacional, considerando desafios específicos de um país em desenvolvimento,
como desigualdades regionais e limitações de infraestrutura, o ESC avalia cidades
médias no contexto europeu, reconhecidas por altos padrões de urbanização,
inovação e sustentabilidade. Essa combinação possibilita uma análise
comparativa entre realidades distintas, permitindo identificar lacunas,
similaridades e oportunidades de aprimoramento dos indicadores. Além disso, ao
comparar os rankings, com suas visões multidimensionais e metodologias
consolidadas, com a norma brasileira, é possível avaliar o alinhamento e a
compatibilidade das práticas adotadas nos contextos nacional e internacional.
Este texto está estruturado da seguinte
maneira: após a introdução apresentada, há uma seção dedicada à fundamentação
teórica sobre o conceito de CI e uma primeira apresentação das ferramentas
empregadas no estudo. Em seguida, são descritos os procedimentos metodológicos
adotados, seguidos pela seção dos resultados, na qual são apresentados os
principais achados a partir da análise comparativa das ferramentas. O trabalho
é finalizado com as considerações finais, que sintetizam os resultados e
reflexões da pesquisa.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E ABORDAGENS ANALÍTICAS DAS CI
Nesta seção, são explorados os conceitos
centrais relacionados à temática, articulando diferentes perspectivas teóricas
sobre CI e sua relação com instrumentos de avaliação, como a norma ABNT NBR ISO
37122:2020 e os rankings CSC e ESC. Diferentemente de abordagens
descritivas, busca-se aqui integrar correntes teóricas e evidenciar como distintas
interpretações do conceito de CI influenciam diretamente a construção de
indicadores e métricas de avaliação urbana.
2.1 Cidades Inteligentes
O
crescimento acelerado das cidades, intensificado pela globalização, tem
pressionado os governos a adotarem estratégias mais sustentáveis de
planejamento urbano. Nesse contexto, o conceito de CI emerge como uma abordagem
capaz de articular tecnologia, gestão e sustentabilidade na tentativa de
responder aos desafios urbanos contemporâneos.
Desde
sua origem na década de 1990, o conceito de CI tem sido marcado por uma
pluralidade de definições e interpretações, refletindo diferentes perspectivas
analíticas e interesses institucionais (Albino; Berardi; Dangelico,
2015; Gibson; Kozmetsky; Smilor, 1992). Essa diversidade, embora enriqueça o
debate, também evidencia a ausência de um consenso conceitual e metodológico,
resultando, muitas vezes, em abordagens fragmentadas ou até mesmo idealizadas
do fenômeno urbano.
De
forma geral, a literatura pode ser organizada em duas grandes abordagens: uma
perspectiva tecnocêntrica e outra multidimensional. A abordagem tecnocêntrica
enfatiza o papel das TICs como principais vetores de transformação urbana.
Nessa perspectiva, as CI são caracterizadas pela capacidade de otimizar serviços,
melhorar a eficiência na gestão de recursos e promover a tomada de decisão
baseada em dados (Batty et al., 2012; Dameri, 2013). Avanços como Internet das
Coisas (IoT), big data, computação em nuvem e inteligência artificial
são considerados fundamentais para o desenvolvimento de sistemas urbanos mais
eficientes (Johnson, 2008; Schaffers et al., 2011). Além disso, essa abordagem
associa a inovação tecnológica à geração de crescimento econômico e ao
fortalecimento de ecossistemas urbanos interconectados.
No
entanto, embora essa perspectiva contribua significativamente para a
modernização da gestão urbana, ela tem sido criticada por seu viés operacional
e por, frequentemente, subestimar dimensões sociais, institucionais e
territoriais. A centralidade atribuída à tecnologia pode levar à simplificação
de problemas complexos e à reprodução de desigualdades existentes,
especialmente em contextos urbanos heterogêneos.
Em
contraposição, a abordagem multidimensional compreende as CI como sistemas
complexos que integram dimensões econômicas, sociais, ambientais e de
governança. Nessa linha, autores como Caragliu, Del Bo e Nijkamp
(2011) destacam a importância do capital humano e social, da governança
participativa e do desenvolvimento sustentável, enquanto Giffinger et al.
(2007) propõem a estruturação do conceito em seis dimensões interdependentes:
economia, mobilidade, meio ambiente, governança, cidadania e qualidade de vida.
Essa perspectiva amplia o entendimento das CI ao incorporar fatores não
tecnológicos, reconhecendo a cidade como um sistema integrado e dinâmico.
Complementarmente,
abordagens mais recentes reforçam a necessidade de integrar infraestrutura
urbana, serviços públicos e inovação tecnológica com princípios de equidade
social e sustentabilidade ambiental (Ahvenniemi et al., 2017; Bej et
al., 2021). Nesse sentido, a relação entre CI e cidades sustentáveis
torna-se central, ao considerar que o uso de tecnologias deve estar alinhado à
redução de impactos ambientais, à eficiência no uso de recursos e à melhoria da
qualidade de vida das populações (Höjer; Wangel, 2014; Jong et al.,
2015).
Apesar
dos avanços conceituais, persistem lacunas relevantes quanto à
operacionalização do conceito, especialmente no que se refere à definição de
métricas capazes de captar sua complexidade multidimensional. Nesse contexto,
as diferentes abordagens teóricas não se restringem ao plano conceitual, mas
influenciam diretamente a construção de instrumentos de avaliação urbana,
orientando a seleção de indicadores, os critérios de mensuração e as formas de
interpretação do desempenho das cidades. Dessa forma, instrumentos de avaliação
passam a refletir essas distintas perspectivas, evidenciando que a avaliação
das CI não é neutra, mas condicionada por escolhas teóricas e metodológicas.
Tal constatação reforça a importância de analisar esses instrumentos, de modo a
compreender como diferentes concepções de inteligência urbana se traduzem em
práticas concretas de avaliação.
2.2 Instrumentos de avaliação de CI: norma
brasileira e rankings de classificação
A
avaliação das CI tem sido realizada por meio de diferentes instrumentos que
buscam identificar, medir e comparar o desempenho urbano a partir de múltiplos
indicadores. Esses instrumentos não são homogêneos, uma vez que refletem distintas
abordagens conceituais e metodológicas sobre o que caracteriza uma CI. Dessa
forma, destacam-se, de um lado, as normas técnicas, como a ABNT NBR ISO 37122:2020,
e, de outro, os rankings de classificação – CSC e ESC, os quais, embora
compartilhem o objetivo de avaliação, diferem quanto à sua estrutura,
finalidade e lógica de aplicação.
A
norma ABNT NBR ISO 37122:2020 foi desenvolvida pela Comissão de Estudo Especial
de Cidades Sustentáveis (ABNT/CEE-267), com o objetivo de estabelecer
diretrizes e critérios para a criação e aplicação de indicadores que avaliem o
grau de sustentabilidade social, econômica e ambiental em CI no Brasil. Essa
comissão teve como missão adaptar os princípios e orientações do padrão
internacional da ISO, garantindo sua aplicabilidade ao contexto nacional (ABNT,
2020).
Inserida
em uma série de normas internacionais voltadas ao desempenho sustentável de
comunidades, a ABNT NBR ISO 37122:2020 baseia-se na ISO 37120, que trata de
indicadores para serviços urbanos e qualidade de vida, e integra um conjunto
mais amplo de normas (ISO 37100 a ISO 37106) que abordam diferentes aspectos da
sustentabilidade urbana (ABNT, 2020). Nesse sentido, a norma brasileira não
apenas complementa a ISO 37120:2017, mas também amplia o escopo de indicadores,
adaptando-os às especificidades do território brasileiro.
Na
sua parte introdutória, a norma sugere que, quando utilizada em conjunto com a
ISO 37120:2017, pode auxiliar as cidades na implementação de sistemas de gestão
urbana, políticas públicas e projetos voltados às CI, contribuindo para a
melhoria dos serviços urbanos e da qualidade de vida. Para isso, estabelece
definições, metodologias e critérios que permitem a mensuração e o
acompanhamento de indicadores ao longo do tempo.
Embora
não determine um conjunto rígido de indicadores obrigatórios para todas as
cidades, a norma apresenta uma estrutura organizada por eixos temáticos,
oferecendo diretrizes que possibilitam a adaptação dos indicadores às
diferentes realidades locais. Dessa forma, os municípios podem selecionar, de
forma parcial ou integral, os indicadores mais adequados às suas necessidades,
considerando fatores como porte populacional, características territoriais,
cultura e desafios específicos.
A
elaboração de seus indicadores, por eixos temáticos, deve observar critérios
como: (a) integralidade: convém usar indicadores que meçam e equilibrem
aspectos relevantes para avaliar a CI; (b) tecnologia neutra: sem favorecimento
de tecnologias específicas, sejam existentes ou futuras; (c) simplicidade: com
apresentação compreensível e clara dos indicadores; (d) validade: os
indicadores devem ser coletados usando técnicas científicas e devem
refletir fielmente fatos e dados; (e) verificabilidade: os indicadores devem
ser verificáveis e reprodutíveis. As metodologias utilizadas precisam ser
rigorosas, a fim de assegurar criteriosa implementação; (f)
disponibilidade: devem existir dados confiáveis à disposição para monitoramento
seguro (ABNT, 2020). Esses princípios visam garantir a confiabilidade e a
comparabilidade dos dados, ao mesmo tempo em que promovem maior transparência e
rigor metodológico na avaliação urbana. Além disso, a norma contribui para a
implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), ao permitir o
monitoramento de metas relacionadas ao desenvolvimento urbano sustentável.
Apesar
dessas contribuições, observa-se que a norma apresenta uma forte orientação
operacional, com ênfase em indicadores mensuráveis e frequentemente associados
ao uso de TICs. Essa característica evidencia seu alinhamento com uma
perspectiva mais tecnocêntrica das CI, na qual a eficiência dos serviços
urbanos e o uso de tecnologias assumem papel central na avaliação do desempenho
das cidades.
Em
paralelo à abordagem normativa, os rankings de classificação surgem como
instrumentos amplamente utilizados para avaliar e comparar cidades a partir de
indicadores agregados. Esses rankings permitem sintetizar grandes
volumes de dados em métricas comparativas, facilitando a análise do desempenho
urbano e apoiando a formulação de políticas públicas. Contudo, diferentemente
das normas, os rankings não possuem caráter regulatório, estando mais
associados a processos de benchmarking, competitividade e posicionamento
urbano.
De acordo com Athié (2020), a existência de muitos indicadores utilizados para a classificação de CI não colaboraria, necessariamente, para a melhoria na qualidade de vida nos centros urbanos, por muitos deles não representarem a demanda real da sociedade. Esta situação poderia ser identificada na pesquisa realizada por Guimarães (2018), em que se registra a utilização de centenas de indicadores utilizados para a classificação de uma CI, sendo diversos destes incompatíveis, gerando, desta forma, uma dificuldade na compreensão e interpretação do que seria ou não importante para uma cidade ser considerada inteligente.
Nesse
sentido, os rankings desempenham um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que
permitem comparações e subsidiam decisões estratégicas, também podem funcionar
como ferramentas de marketing urbano, utilizadas para atrair
investimentos e promover a imagem das cidades.
O ranking
CSC destaca-se como uma das principais ferramentas de avaliação no contexto
brasileiro, tendo como objetivo mapear cidades com maior potencial de
desenvolvimento inteligente, sustentável e humano. Em sua edição de 2025, foram
analisados os 5.575 municípios do Brasil, evidenciando a abrangência da
ferramenta (CSC, 2025).
A construção do CSC baseia-se em referências nacionais e internacionais, incluindo estudos sobre CI, conectadas e sustentáveis, além de normas ISO, como a ISO 37120 e a ISO 37122. Entre suas premissas, destaca-se a busca por equilíbrio entre rigor científico e acessibilidade, de modo que os resultados sejam não apenas tecnicamente consistentes, mas também compreensíveis e replicáveis por diferentes públicos (CSC, 2025).
Além
disso, o ranking adota uma perspectiva dinâmica, na qual os indicadores
são continuamente revisados e atualizados conforme a disponibilidade de novas
evidências, refletindo a evolução das agendas urbanas e dos próprios processos
de mensuração. Outro aspecto relevante refere-se à metodologia baseada no
desempenho absoluto das cidades, mensurado pela distância em relação a valores
de referência previamente estabelecidos, com indicadores normalizados em uma
escala de 0 a 100 (CSC, 2025).
Essas
premissas evidenciam que, embora o CSC incorpore uma abordagem multidimensional
do desenvolvimento urbano, sua estrutura metodológica permanece orientada à
mensuração e comparabilidade do desempenho, revelando um caráter pragmático e
voltado à gestão e ao posicionamento das cidades.
Essa lógica metodológica se materializa na organização do ranking em eixos temáticos, por meio dos quais os indicadores são distribuídos e operacionalizados (Figura 1).
Figura 1 – Ranking CSC (eixos temáticos)
Fonte: Adaptado
de CSC (2025).
Com base na avaliação desses indicadores, na edição de 2025, a cidade de Vitória/ES ocupou a primeira colocação geral, seguida por Florianópolis/SC, Niterói/RJ, São Paulo/SP e Curitiba/PR. No recorte por porte populacional, especificamente na categoria de municípios com até 100 mil habitantes, a cidade de Pato Branco/PR (15ª na colocação geral) consolidou-se como referência nacional, reforçando o potencial de cidades de menor porte na adoção de soluções inteligentes.
No âmbito internacional, o ranking ESC foi proposto pela Vienna University of Technology - Centre of Regional Science em 2007 e revisado a fim de atender aos requisitos específicos do projeto Planning for Energy Efficient Cities (PLEEC) em 2013. A abordagem inicial concentrava-se em cidades de médio porte e suas perspectivas de competitividade e desenvolvimento sustentável. No ano de 2015, com o lançamento da versão 4.0, a ferramenta passou a abranger grandes cidades.
Por conta de as cidades médias terem de competir com as maiores, teriam a tendência de estarem menos equipadas em termos de recursos e capacidade de organização. Assim, para assegurar o desenvolvimento e alcançar um bom posicionamento relativo, essas cidades precisariam identificar os seus pontos fortes e oportunidades com mais cuidado, garantindo vantagens comparativas em relação a outras cidades da mesma escala (Giffinger et al., 2007).
Sua
estrutura apresenta uma abordagem distinta, baseada na construção de perfis
urbanos estruturados em seis dimensões: economia, mobilidade, meio ambiente,
governança, pessoas e qualidade de vida (Figura 2). Diferentemente de rankings
estritamente classificatórios, o ESC tem como objetivo apoiar o benchmarking e o planejamento
estratégico, permitindo uma análise mais aprofundada das características e
potencialidades de cada cidade. Para isso, utiliza indicadores em diferentes
níveis (local, regional e nacional), os quais são padronizados estatisticamente
para possibilitar comparações.
Figura 2 – Ranking ESC (key fields
do desenvolvimento urbano – esquerda; estrutura de análise - direita)
Fonte:
Adaptado de Giffinger et al. (2007).
Os resultados encontrados por meio do uso do ranking são frequentemente discutidos em workshops com stakeholders locais, contribuindo para a formulação de estratégias de desenvolvimento urbano. Essa abordagem reforça a dimensão participativa e estratégica do instrumento, ampliando sua aplicabilidade na gestão urbana. Nota-se, assim, que o método de avaliação utilizado possui uma estrutura flexível que permite tanto a melhoria do sistema de indicadores quanto a ampliação da amostra.
Entretanto,
o ESC também apresenta limitações, como a dependência de dados locais, a
dificuldade de comparação entre contextos distintos e possíveis vieses
regionais associados à realidade europeia. Ademais, os critérios de seleção das
cidades, especialmente na versão voltada a cidades médias, podem restringir a
abrangência da análise.
Diante
do exposto, a análise da norma ABNT NBR ISO 37122:2020 e dos rankings CSC e ESC
evidencia que, embora esses instrumentos compartilhem o objetivo de avaliar o
desempenho das cidades, refletem diferentes concepções sobre o que caracteriza
uma CI. Enquanto a norma prioriza a padronização, a mensurabilidade e a
orientação técnica, os rankings incorporam uma visão mais ampla e
contextualizada, ainda que influenciada por dinâmicas de mercado e limitações
metodológicas.
Essa
distinção evidencia que os instrumentos de avaliação das CI não são neutros,
mas refletem escolhas teóricas e metodológicas que influenciam diretamente a
forma como as cidades são analisadas e comparadas. No entanto, apesar dos
avanços na construção dessas ferramentas, a literatura ainda apresenta lacunas;
nesse sentido, busca-se, a partir da análise dos instrumentos selecionados,
evidenciar suas complementaridades, limitações e possibilidades de integração
na avaliação das CI.
3 METODOLOGIA
Esta pesquisa é de natureza
aplicada, direcionada à produção de conhecimentos práticos para subsidiar a
avaliação comparativa de indicadores de CI (Gil, 2008). Classifica-se como
descritiva em relação aos objetivos, ao caracterizar as convergências e lacunas
entre as ferramentas de desempenho (Gil, 2002), e qualitativa quanto à abordagem
metodológica, por meio da análise interpretativa de fenômenos conceituais e
dimensionais no contexto urbano (Yin, 2016).
Os procedimentos metodológicos foram
estruturados em duas etapas sequenciais: a) revisão da literatura para mapear
conceitos, definições e dimensões teóricas das CI, com caracterização detalhada
das ferramentas analíticas selecionadas sendo a norma ABNT NBR ISO 37122:2020
(80 indicadores em 19 eixos), o ranking CSC (75 indicadores em 13 eixos)
e o ESC (81 indicadores em 6 key fields);
e b) análise documental comparativa, com replicabilidade por meio dos
protocolos para seleção e comparação dos indicadores, alinhados às práticas
consolidadas em estudos de planejamento urbano.
Na fase comparativa, a seleção dos
indicadores seguiu os seguintes critérios: i) pertinência temática, verificando
alinhamento aos eixos temáticos das ferramentas; ii) abrangência quantitativa,
considerando quantidade e distribuição por eixo; e iii) relevância conceitual,
priorizando dimensões como tecnologia, sustentabilidade, inovação, governança e
inclusão social, abrangendo integralmente os conjuntos de indicadores das três
ferramentas. As comparações foram operacionalizadas via matriz analítica, que
avaliou: i) as correspondências diretas (equivalência em definição, métrica e
fonte de dados); ii) as lacunas temáticas (ausência de cobertura em dimensões
específicas); e iii) as diferenças qualitativas/quantitativas (ex.: enfoque
tecnicista da norma versus multidimensionalidade dos rankings), com
categorização binária (correspondente/não correspondente), cálculo de
sobreposição percentual e validação cruzada.
No Quadro 1, é possível verificar um
comparativo entre as principais características dos instrumentos de análise.
Quadro 1 – Características gerais das ferramentas de análise
|
Características |
Norma Brasileira |
Ranking CSC |
Ranking ESC |
|
Primeira versão |
2020 |
2015 |
2007 (versão 3.0 - cidades médias); 2015 (versão 4.0 -
grandes cidades) |
|
Última versão |
Não se aplica |
2025 |
2014 (versão 3.0); 2015 (versão 4.0) |
|
Eixos temáticos |
19 |
13 |
6 (com 28 domínios) |
|
Indicadores |
80 |
75 (última versão) |
81 (versão 3.0) |
|
Cidades analisadas |
Não se aplica |
Todos os municípios brasileiros (última versão) |
2014 – 77 cidades médias europeias 2015 – 90 grandes cidades europeias |
|
Fonte de Dados |
ABNT, 2020 |
CSC, 2025 |
ESC, 2026; Giffinger et al., 2007; Contato pessoal
(via e-mail) com Giffinger |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Como observado no Quadro 1, a ABNT
NBR ISO 37122:2020 apresenta os temas de coletas de dados divididos em 19 eixos
temáticos, organizados em 80 indicadores (Quadro 2) a serem reportados
anualmente. Para cada indicador, a norma apresenta uma definição geral,
requisitos mínimos, possíveis fontes de dados e explicações sobre como
interpretar os dados.
Quadro 2 – Indicadores por eixo temático da norma ABNT NBR ISO 37122:2020
|
Eixo Temático |
Qt. de Indicadores |
Eixo Temático |
Qt. de Indicadores |
|
1 Economia |
4 |
11 Segurança |
1 |
|
2 Educação |
3 |
12 Resíduos Sólidos |
6 |
|
3 Energia |
10 |
13 Esporte e cultura |
4 |
|
4 Meio Ambiente e
Mudanças Climáticas |
3 |
14 Telecomunicação |
3 |
|
5 Finanças |
2 |
15 Transporte |
14 |
|
6 Governança |
4 |
16 Agricultura
local/urbana e segurança alimentar |
3 |
|
7 Saúde |
3 |
17 Planejamento urbano |
4 |
|
8 Habitação |
2 |
18 Esgotos |
5 |
|
9 População e
condições sociais |
4 |
19 Água |
4 |
|
10 Recreação |
4 |
- |
- |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), de
acordo com ABNT (2020).
Já o ranking CSC está
estruturado em 13 eixos temáticos (Quadro 3), que abrangem diversas áreas de
análise do desenvolvimento urbano. O total de indicadores utilizados na
avaliação é de 75, sendo que muitos desses indicadores são compartilhados em
mais de um eixo devido à sua relevância e ao valor que agregam em múltiplos
contextos.
Quadro 3 – Indicadores por eixo temático do ranking CSC
|
Eixo Temático |
Qt. de indicadores individuais |
|
1 Mobilidade Urbana |
3 |
|
2 Habitação e Planejamento Urbano |
6 |
|
3 Meio Ambiente e Mudanças Climáticas |
4 |
|
4 Telecomunicações |
4 |
|
5 Saúde, Agricultura Local/Urbana e Segurança
Alimentar |
10 |
|
6 Segurança |
2 |
|
7 Educação |
8 |
|
8 Inovação e Empreendedorismo |
5 |
|
9 Governança |
4 |
|
10 Economia e Finanças |
10 |
|
11 Energia |
3 |
|
12 População, Condições Sociais |
6 |
|
13 Resíduos Sólidos, Esgotos e Água |
10 |
|
TOTAL: |
75 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), de acordo com CSC (2025).
No que se refere ao ranking ESC,
tanto a versão 3.0 quanto a versão 4.0 apresentam uma estrutura comum,
organizada em seis eixos temáticos (Quadro 4), subdivididos em 28 domínios,
totalizando 81 indicadores.
Quadro 4 – Indicadores por eixo temático do ranking ESC
|
Eixo temático (Key Fields) |
Domínios |
Qt. de indicadores |
|
1 Economia Inteligente |
6 |
15 |
|
2 Meio Ambiente Inteligente |
4 |
10 |
|
3 Governança Inteligente |
3 |
9 |
|
4 Vida Inteligente |
7 |
25 |
|
5 Mobilidade Inteligente |
4 |
11 |
|
6 Pessoas Inteligentes |
4 |
11 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), de acordo com ESC (2026).
Conforme observado no Quadro 4, na
avaliação dos perfis das CI, os key fields do desenvolvimento urbano no ranking
ESC foram caracterizados como: economia inteligente, pessoas inteligentes,
mobilidade inteligente, meio ambiente inteligente, vida inteligente e
governança inteligente.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
As análises realizadas evidenciam
não apenas diferenças estruturais entre a norma ABNT NBR ISO 37122:2020 e os rankings
CSC e ESC, mas também distintas concepções teóricas subjacentes à avaliação
das CI. De forma geral, observa-se uma baixa correspondência entre os
indicadores, indicando que os instrumentos analisados não operam de maneira
convergente, mas refletem lógicas distintas de mensuração do desempenho urbano.
Um primeiro achado relevante refere-se
à limitada sobreposição entre os indicadores da norma e dos rankings. No
caso do CSC, uma baixa parcela dos indicadores apresentam correspondência
direta com a norma, enquanto no ESC essa parcela é ainda menor. Esse resultado
sugere que, embora compartilhem o objetivo de avaliar CI, os instrumentos
diferem significativamente quanto à seleção e priorização dos indicadores,
reforçando a ausência de padronização destacada na literatura.
Essa baixa convergência pode ser
interpretada à luz das abordagens teóricas discutidas anteriormente. A norma
ABNT NBR ISO 37122:2020 apresenta forte alinhamento com uma perspectiva
tecnocêntrica, priorizando indicadores operacionais, mensuráveis e
frequentemente associados ao uso de TICs. Por outro lado, os rankings
incorporam, em diferentes graus, uma abordagem mais multidimensional, ao
considerar aspectos sociais, econômicos e territoriais de forma mais ampla.
Ao analisar o enquadramento dos
indicadores dos rankings junto aos eixos temáticos da norma ABNT NBR ISO
37122:2020, foi possível identificar as seguintes características (Quadro 5):
Quadro 5 – Análise comparativa entre
ferramentas
|
Dimensão |
Característica da
Norma Brasileira |
Característica do ranking
CSC |
Característica do ranking
ESC |
|
Economia |
Direcionado ao uso de dados abertos |
Perspectiva ampla, mas não considera o uso de dados abertos |
Abordagem mais qualitativa |
|
Educação |
Prioriza indicadores quantitativos, com foco em infraestrutura
educacional e eficiência |
Visão limitada de indicadores educacionais, sem detalhar aspectos
estruturais ou qualitativos |
Abordagem mais qualitativa |
|
Energia |
Possui abordagem limitada |
Pouco abordada |
Sem referência direta |
|
Meio Ambiente e Mudanças Climáticas |
Foco em construções/edificações |
Enfoque pragmático e aplicado à gestão municipal |
Abordagem mais ampla |
|
Finanças |
Direcionado
a pagamentos eletrônicos/digitais |
Pouco abordada |
Sem
referência direta |
|
Governança |
Indicadores limitados ao uso tecnológico |
Abordada de forma limitada e simplista |
Abordada de forma mais completa e explícita |
|
Saúde |
Viés exclusivo nas TICs |
Voltada para o acesso universal à saúde |
Foco em infraestrutura física, capacidade de atendimento e resultados |
|
Habitação |
Limitada ao uso tecnológico |
Articulada
ao planejamento urbano |
Indicadores que representam a realidade atual |
|
População e Condições Sociais |
Foco em
acessibilidade, inclusão social e igualdade de oportunidades |
Direcionado
à inclusão social, qualidade de vida e políticas públicas |
Sem
referência direta |
|
Recreação |
Possui indicador limitado ao uso das TICs |
Sem
referência direta |
Sem
referência direta |
|
Segurança |
Representação
mais limitada |
Indicadores
mais específicos |
Indicadores
mais específicos |
|
Resíduos Sólidos |
Abordagem clara e abrangente |
Direcionado à gestão sustentável de resíduos e economia circular |
Sem
referência direta |
|
Esporte e Cultura |
Limitada ao uso de livros e bibliotecas |
Sem
referência direta |
Abordagem mais clara e consistente |
|
Telecomunicação |
Ampla integração com rankings |
Ampla integração com a norma |
Ampla integração com a norma |
|
Transporte |
Foca na tecnologia inteligente e na eficiência operacional |
Foco em sustentabilidade e acessibilidade |
Mais aderente que o CSC, com foco na qualidade do serviço, segurança
viária e satisfação do usuário |
|
Agricultura local/urbana e segurança alimentar |
Várias formas abordadas |
Capacidade
de coleta e tratamento, reciclagem |
Sem
referência direta |
|
Planejamento Urbano |
Foco na
eficiência administrativa e inclusão da população |
Foco no
crescimento urbano estruturado |
Sem
referência direta |
|
Água e Esgoto |
Ampla abordagem |
Articulada
a resíduos sólidos |
Pouco abordada |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Ao analisar os eixos temáticos,
observa-se que a convergência entre os instrumentos ocorre principalmente em
dimensões mais estruturadas e mensuráveis, como Economia, Telecomunicações, Transporte
e Energia. No entanto, essa convergência é parcial e não se estende a dimensões
mais complexas, como Governança, Saúde, Meio Ambiente e aspectos sociais, nas
quais predominam divergências significativas.
Nesse sentido, os resultados indicam
que a norma apresenta limitações importantes ao restringir determinadas
dimensões à lógica tecnológica. A Governança, por exemplo, é tratada
predominantemente a partir do uso de tecnologias, enquanto o ranking ESC
incorpora elementos institucionais e participativos mais amplos. De forma
semelhante, a dimensão Saúde, na norma, está fortemente associada às TICs, ao
passo que os rankings consideram aspectos como acesso, infraestrutura e
resultados dos serviços.
A análise da dimensão habitacional
também revela diferenças relevantes. Embora o CSC 2025 tenha avançado ao
incorporar em sua última versão o eixo “Habitação e Planejamento Urbano”, essa
dimensão permanece fortemente vinculada à lógica territorial e ao ordenamento
urbano, diferentemente da norma, que a aborda sob uma perspectiva tecnológica,
e do ESC, que apresenta indicadores mais alinhados às condições reais de
moradia. Esse resultado reforça a predominância de abordagens estruturais e
operacionais nos instrumentos analisados, em detrimento de uma leitura mais
social da habitação.
Além disso, destaca-se que os rankings
incorporam dimensões ausentes na norma, como Inovação e Empreendedorismo,
evidenciando uma ampliação do escopo analítico em relação às dinâmicas
contemporâneas do desenvolvimento urbano. Por outro lado, a norma apresenta
maior detalhamento em áreas como Resíduos Sólidos, Água e Esgoto e Agricultura
Urbana, dimensões ainda pouco exploradas pelos rankings.
Esses achados dialogam diretamente
com a literatura, ao confirmar a coexistência de abordagens distintas na
avaliação das CI. No entanto, diferentemente de estudos anteriores que tratam
esses instrumentos de forma isolada, os resultados desta pesquisa evidenciam
que as divergências não são apenas metodológicas, mas também conceituais,
refletindo diferentes entendimentos sobre o que constitui uma CI.
Do ponto de vista das convergências,
destaca-se a dimensão de Telecomunicações, na qual há forte alinhamento entre
norma e rankings, evidenciando o papel central das TICs na avaliação
urbana contemporânea. Ainda assim, mesmo nessa dimensão, a forma de
operacionalização dos indicadores varia, reforçando a heterogeneidade dos
instrumentos.
Outro aspecto relevante refere-se às
limitações metodológicas identificadas, especialmente no ranking ESC, no
qual alguns indicadores carecem de maior transparência quanto às metodologias
de cálculo, o que pode comprometer a comparabilidade dos resultados. Esse
aspecto evidencia que, embora os rankings ampliem o escopo analítico,
também apresentam fragilidades que devem ser consideradas na sua utilização.
Diante desses resultados, observa-se
que a utilização isolada desses instrumentos tende a produzir leituras parciais
do desempenho urbano, na medida em que cada um deles enfatiza dimensões
específicas das CI. Nesse contexto, a articulação entre a robustez normativa da
ABNT NBR ISO 37122:2020 e a flexibilidade analítica dos rankings
mostra-se uma alternativa promissora para a construção de avaliações mais
abrangentes e sensíveis às diferentes realidades urbanas.
Essa constatação reforça que a
avaliação das CI é influenciada por distintas matrizes conceituais,
evidenciando a necessidade de abordagens que integrem perspectivas
tecnocêntricas e multidimensionais. Ao mesmo tempo, os resultados indicam que a
combinação entre instrumentos pode ampliar a capacidade de diagnóstico e
planejamento urbano, oferecendo subsídios mais consistentes para a formulação
de políticas públicas e para a tomada de decisão.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A investigação de sistemas de
indicadores que busquem identificar, medir, qualificar, classificar, ou mesmo
comparar o desempenho das cidades em um desenvolvimento mais inteligente e
sustentável tem se tornado vantajosa na competitividade econômica global. Nas
últimas décadas, podem-se verificar diversas tentativas de modelos de
avaliações, com metodologias de indicadores mais amplas, ou mesmo mais
simplistas, que buscam fornecer informações relevantes, baseadas no
conhecimento, para o crescimento da economia local e para prever estratégias
para o desenvolvimento futuro dos centros urbanos, mitigando os problemas
decorrentes da urbanização.
A análise dos instrumentos como
abordados neste trabalho deixa claro que a norma ABNT NBR ISO 37122:2020 está
focada em indicadores operacionais, diferentemente dos rankings que
abordam os temas de forma mais ampla. A norma, por sua vez, por seu caráter
normativo, pode ser utilizada como orientação facultativa, ou ainda, se
definido por legislação específica, adotada em caráter regulamentar. O ranking
CSC, originado de uma abordagem mais focada no setor privado e no branding
de CI, tende a enfatizar aspectos operacionais, muitas vezes em função de
uma visão de marketing. Por outro lado, o ranking ESC, que tem
raízes em uma colaboração público-privada, adota um olhar amplo do desenvolvimento
urbano, embora alguns de seus indicadores careçam de clareza e objetividade.
Entre os eixos temáticos avaliados,
na norma brasileira, o eixo com maior quantidade de indicadores é o eixo
Transporte, com 14 indicadores no total. No ranking CSC, o eixo Saúde, Agricultura Local/Urbana e Segurança Alimentar
e o eixo Economia e Finanças, ambos, com 10
indicadores cada (individuais e compartilhados) e, no ranking ESC, o eixo Vida
Inteligente com 25 indicadores. Com menor número de indicadores, tanto na norma
ABNT NBR ISO 37122:2020 quanto no ranking CSC, o eixo Segurança, com apenas dois
indicadores. No ranking ESC o eixo temático com menos indicadores é o de Governança
Inteligente, com 9 indicadores.
Por fim, como implicação para
futuras pesquisas, destaca-se a necessidade de aprofundar análises empíricas
que explorem a aplicação integrada desses instrumentos em contextos urbanos
específicos, bem como investigar como diferentes escolhas de indicadores
influenciam os resultados das avaliações e o posicionamento das cidades nos rankings.
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