Internet of things as an enabler of reverse
logistics in the footwear industry: evidence from a case study in Brazil
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Dusan Schreiber |
Doutor em Administração. Universidade
Feevale – Brasil. dusan@feevale.br |
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Silaine Carini Sander |
Mestra
em Administração. Universidade Feevale – Brasil. silaine.sander@gmail.com |
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Vilson José Becker |
Bacharel
em Administração. Universidade Feevale – Brasil. vilson.becker@hotmail.com |
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Cristiane Froehlich |
Doutora
em Administração. Universidade Feevale – Brasil. cristianefroehlich@hotmail.com |
RESUMO
A logística reversa é considerada uma das práticas
mais eficazes no âmbito da Política Nacional de Resíduos Sólidos para
contribuir com a redução do impacto ambiental. Em determinadas atividades
econômicas ela já é uma realidade, com processos e operações implementados. No
entanto, na maioria dos setores econômicos, considerados pela legislação atual como
de menor risco para o meio ambiente, a logística reversa ainda se encontra em
fase de debate e planejamento. Um desses setores é a indústria de calçados. O
impacto ambiental do calçado é relevante devido ao volume que representa quando
disposto em aterros sanitários, porém a legislação vigente não exige a sua
implementação. O objetivo da pesquisa consiste em analisar as possíveis contribuições da internet das
coisas (IoT) para operacionalizar a logística reversa em uma das maiores
indústrias de calçados do Brasil. Para
alcançar esse objetivo, optou-se pela estratégia de estudo de caso único. Os
dados empíricos foram coletados por meio de entrevistas em profundidade com
gestores operacionais da empresa, além de levantamento documental e observação
sistemática não participante. Os
resultados indicam que a IoT pode viabilizar a logística reversa na indústria
calçadista ao ampliar a rastreabilidade do fluxo de retorno, integrar dados de
devolução, apoiar decisões operacionais e favorecer o engajamento do consumidor
no descarte e na devolução. O caso também evidencia que sua adoção tende a
concentrar-se em estruturas já digitalizadas e em centrais logísticas e recicladoras,
sendo limitada por restrições de investimento e pela baixa prioridade
estratégica atribuída à logística reversa no setor.
Palavras-chave: Logística
reversa; Fabricação de calçados; IoT; Sustentabilidade.
ABSTRACT
Reverse logistics is
considered one of the most effective practices within the framework of the
National Solid Waste Policy for contributing to the reduction of environmental
impacts. In certain economic activities, it is already a reality, with established
processes and operations. However, in most economic sectors, which are regarded
by current legislation as posing lower environmental risk, reverse logistics
remains at the stage of debate and planning. One such sector is the footwear
industry. The environmental impact of footwear is significant due to the volume
it represents when disposed of in landfills; however, current legislation does
not require its implementation. The objective of this study is to analyze the
potential contributions of the Internet of Things (IoT) to the
operationalization of reverse logistics in one of the largest footwear
industries in Brazil. To achieve this objective, a single case study strategy
was adopted. Empirical data were collected through in-depth interviews with the
company’s operational managers, as well as through document analysis and
non-participant systematic observation. The results indicate that IoT can
enable reverse logistics in the footwear industry by enhancing the traceability
of return flows, integrating return data, supporting operational
decision-making, and fostering consumer engagement in disposal and return
practices. The case also shows that its adoption tends to be concentrated in
already digitalized structures and in logistics and recycling centers, being
constrained by investment limitations and the low strategic priority assigned
to reverse logistics in the sector.
Keywords: Reverse logistic; Footwear manufacturing; IoT; Sustainability.
Recebido em 12/05/2024. Aprovado em 25/06/2026. Avaliado pelo sistema double blind peer review. Publicado conforme normas da ABNT.
https://doi.org/10.22279/navus.v18.1924
1 INTRODUÇÃO
Para Feil e Schreiber (2017) e Meadows, Randers e
Meadows (2004), a consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável se
faz necessária em virtude da crescente precarização ambiental, que contribui
para o agravamento das mudanças climáticas e que poderá, nas próximas décadas,
colocar em risco o ecossistema global já fragilizado. Nessa perspectiva,
justifica-se a articulação de forças sociais e políticas para promover mudanças
que possam, ao menos, retardar esse processo de deterioração ambiental.
As leis e normas legais que existem no Brasil são
consideradas, pelos especialistas, adequadas, pertinentes e suficientes para
assegurar a proteção ambiental. O problema consiste na sua aplicação, que está
distante do ideal (Augusto, 2020). A reduzida efetividade do seu cumprimento se
deve, em grande parte, à ineficácia da ação fiscalizatória dos órgãos públicos
responsáveis pela tarefa. Dentre os principais motivos para uma atuação aquém
do necessário, destacam-se a restrição orçamentária e os quadros reduzidos de
funcionários. Em face do exposto, os órgãos de fiscalização priorizam ações em
atividades econômicas comprovadamente mais impactantes para o meio ambiente (Schreiber,
2022).
Existem atividades econômicas que não constam na
lista de prioridades de órgãos fiscalizadores e que também são representativas,
sob a perspectiva de impacto ambiental, em aspectos relacionados ao volume de
resíduos sólidos gerados (Santos; Silva, 2017). Dentre os setores econômicos
citados, destaca-se a fabricação de calçados. Trata-se de uma das atividades
industriais mais tradicionais da humanidade, com registros históricos de sua
existência que remontam aos seus primórdios. Caracteriza-se pela utilização
intensiva de pessoas na operação e, ainda, por apresentar baixo nível de
tecnologia embarcada na produção. Apesar de o risco ambiental ser considerado
de baixa intensidade, a atividade industrial gera volumes expressivos de
resíduos ao longo da cadeia produtiva e, ao final do ciclo de vida, quando o
calçado é descartado, representa um volume que contribui para a redução da vida
útil dos aterros sanitários, além de conter, em sua composição, uma quantidade
crescente de polímeros, cuja decomposição pode levar séculos (Vier et al.,
2021; Schreiber; Sander; Vier, 2023).
A solução para o problema poderia ser a
operacionalização de um processo de logística reversa em calçados (Abdulrahman;
Gunasekaran; Subramanian, 2014). Desde 2010, o Brasil possui normatização e
respaldo legal para a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos
(PNRS), com a definição de responsabilidades e a previsão de medidas legais
para quem vier a descumprir a referida legislação. A logística reversa consta
na PNRS, mas sua aplicação é priorizada em atividades e setores econômicos de
maior risco ambiental. A fabricação de calçados não está entre as prioridades (Staikos
et al., 2006; Santos; Silva, 2017).
Apesar dos avanços conceituais sobre logística
reversa e das contribuições atribuídas à Internet das Coisas (IoT) para
conectividade, rastreabilidade e integração de informações, ainda são
incipientes as evidências sobre a articulação entre esses dois campos no
contexto da indústria calçadista, especialmente em setores nos quais a
logística reversa não decorre de forte imposição regulatória (Abdulrahman;
Gunasekaran; Subramanian, 2014; Staikos et al., 2006; De Vass; Shee;
Miah, 2018; Ben-Daya; Hassini; Bahroun, 2019; Schreiber; Sander; Vier, 2023). Nesse
sentido, investigar as possíveis contribuições da IoT para operacionalizar a
logística reversa nesse setor configura-se como uma oportunidade de avanço
teórico e empírico, ao permitir compreender como tecnologias da Indústria 4.0
podem apoiar práticas de sustentabilidade em contextos industriais específicos.
Ainda, apesar de não estar listada entre as
atividades de maior risco ambiental, a fabricação de calçados gera impacto
decorrente dos volumes descartados, o que reforça a relevância da adoção de
práticas de logística reversa (Staikos et
al., 2006; Schreiber; Wallauer, 2023). Nessa perspectiva, foi conduzido o
estudo com o objetivo de analisar as possíveis contribuições da IoT para
operacionalizar a logística reversa em uma das maiores indústrias de calçados
do Brasil.
As tecnologias da Indústria 4.0, cujo eixo
estruturante é a conectividade facultada pela internet, têm sido amplamente
investigadas pelos potenciais benefícios que podem oferecer, principalmente
para a competitividade organizacional (Liu; Gao, 2014; Moktadir et al.,
2018). No entanto, nos últimos anos, observa-se um crescimento de pesquisas que
visam avaliar suas contribuições para a promoção da sustentabilidade e para a
redução do impacto ambiental em diversos segmentos industriais. Dentre essas
tecnologias, destaca-se a Internet das Coisas (Jabbour et al., 2018; Schreiber,
2022).
Como estratégia de pesquisa, optou-se pelo estudo
de caso único em uma das maiores indústrias de calçados do país, situada na
região sul. A escolha dessa estratégia foi deliberada, por entender que oferece
melhores condições para alcançar o objetivo do estudo, ao permitir a
compreensão aprofundada do ambiente organizacional que modela o processo
decisório. Em alinhamento com a estratégia de estudo de caso, adotou-se a
abordagem qualitativa e, como técnicas de coleta de dados, foram utilizadas
entrevistas em profundidade com gestores e coordenadores, além de observação
sistemática não participante e levantamento documental.
O trabalho inicia com a revisão teórica
acerca de logística reversa e Internet das Coisas. Na sequência, apresenta-se o
detalhamento dos procedimentos metodológicos adotados na coleta e análise dos
dados empíricos. Posteriormente, são apresentados os resultados, seguidos da
análise e discussão, e, por fim, as considerações finais.
2 LOGÍSTICA REVERSA
O conceito de logística teve sua origem em organizações
militares, em função da necessidade de estudar e planejar o abastecimento das
tropas com armamentos, alimentos, água, medicamentos e alojamento. Os novos
hábitos de vida e consumo trazem novos desafios e,
consequentemente, novas demandas para a sociedade e para as organizações (Abdulrahman; Gunasekaran; Subramanian, 2014). A logística é
diretamente afetada pela globalização e pelas características atuais de
consumo. Essas características são marcadas pela
criação de produtos cada vez mais descartáveis, em função da constante
renovação das formas e do ciclo de vida mais curto. Esse cenário contribui para
o sucateamento dos bens de consumo, gerando um volume cada vez maior de
resíduos (Bouzon; Govindan; Rodriguez, 2018).
Schreiber, Sander e Vier (2023) afirmam que, ao se falar em logística, imagina-se um fluxo de produtos
desde o momento em que é gerada a necessidade de atendimento até sua chegada ao
cliente. Para os autores, a logística integra três campos
de ação: a) as técnicas de gestão da distribuição e transporte dos
produtos finais; b) as técnicas de gestão do transporte e manuseio interno; c) as técnicas de gestão
do transporte das matérias-primas necessárias ao processo produtivo.
Segundo Liu e Gao (2014), a vida do produto não
termina com a sua entrega ao cliente, mas sim com seu retorno ao ponto de
origem, para ser adequadamente descartado, reparado ou reaproveitado. Assim, a logística reversa é o
segmento que compreende o planejamento, a operação e
o controle do fluxo físico e de informações relacionados ao retorno de bens de
pós-venda e de pós-consumo à cadeia produtiva. Nesse contexto, a logística
reversa tem como objetivo facilitar a devolução de bens de consumo ou de seus
materiais constituintes à produção ou ao ciclo de
negócios. Esse processo agrega valor econômico, ecológico, de serviço, legal e
de localização.
Shaharudin, Zailani e Tan (2015) explicam que, durante a década de 1980, a
logística se encarregou também do movimento de materiais
no contrafluxo, ou seja, do cliente para o produtor, recebendo,
posteriormente, uma definição mais complexa, conforme demonstrado no Quadro
1.
Quadro 1 – Definições de logística reversa
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Período temporal |
Definições de logística reversa |
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Década de 1990 a 2000 |
A definição da
logística reversa é um termo relacionado às atividades envolvidas no
gerenciamento da movimentação e disposição de embalagens e resíduos. |
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O gerenciamento do
caminho inverso dos materiais, quando comparado ao fluxo direto da cadeia de suprimentos, é chamado de logística reversa. |
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Área da logística que
trata da devolução de produtos, redução da fonte, reciclagem,
reaproveitamento de materiais, substituição ou reparo, remanufatura e reforma
de mercadorias e destinação adequada de resíduos. |
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As atividades da
logística reversa consistem basicamente na coleta de materiais usados,
danificados ou rejeitados, produtos fora de validade, e da sua embalagem e
transporte, do ponto do consumidor final até o revendedor. |
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Processo de
planejamento, implementação e controle do fluxo eficiente e econômico de
matérias-primas, produtos em processo, produtos acabados e informações
relacionadas, desde o ponto de extremidade do consumidor, até o ponto de
origem, com o objetivo de recuperar valor ou dar um
descarte adequado. |
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Década de 2001 a 2010 |
A logística reversa é
um termo que pode ser considerado genérico e significa, em seu sentido mais
amplo, todas as operações relacionadas à reutilização de produtos e
materiais, englobando todas as atividades
logísticas de coletar, desmontar e processar produtos e/ou materiais e peças
usadas, a fim de assegurar uma recuperação sustentável. |
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Council of Supply Chain Management Professional considera que a
logística reversa faz parte do gerenciamento
logístico e que, ao se gerenciar a cadeia de suprimentos, é necessário
planejar, implementar e controlar, de forma eficiente, os fluxos tradicional
e reverso de mercadorias, serviços e informações, visando atender as
necessidades dos clientes. |
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Fluxo reverso, do
ponto de consumo até o ponto onde este produto teve seu início de produção.
Este fluxo reverso precisa ser gerenciado, para que ocorra uma obtenção de
ganhos nos negócios. |
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Década de 2010 a 2020 |
A logística reversa é como uma área da
logística empresarial, que planeja, opera e
controla o fluxo e as informações logísticas correspondentes, do retorno dos
bens de pós-venda e de pós-consumo ao ciclo de negócios ou ao ciclo
produtivo, por meio dos canais de distribuição reversos, agregando-lhes valor, de natureza econômica, ecológica, logística, de
imagem corporativa, dentre outros. |
|
Instrumento de
desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações,
procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos
resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou
em outros ciclos produtivos, ou outra destinação
final ambientalmente adequada. |
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Contempla importantes etapas do ciclo de vida de um produto, como
o reparo, reuso e reciclagem de materiais e componentes, recuperação e
destinação final, ou seja, é uma ferramenta que pode propiciar importantes
ganhos sociais, ambientais e econômicos, possuindo um papel muito relevante na gestão do ciclo de vida dos produtos. |
Fonte: adaptado de Schreiber, Sander e Vier (2023).
São diversos os fatores que estimulam a logística reversa nas empresas. Vier et al. (2021) citam, entre os mais
relevantes, a sensibilidade ecológica, as pressões legais, a redução do ciclo de
vida dos produtos, a busca por imagem diferenciada (competitividade) e a redução de custos
(economia), tanto na compra de matéria-prima, como no descarte dos resíduos. O elevado nível de
consumo observado nos últimos anos, aliado ao aumento do lançamento de novos
produtos com menor tempo de ciclo mercadológico e com obsolescência precoce,
tem contribuído para o aumento do volume de produtos descartados no ambiente. Muitos desses produtos são descartados com pouco
ou nenhum uso ou, ainda, antes do término de sua vida útil (Wallauer; Martins; Schreiber, 2016).
Ainda, Santos e Silva (2017) destacam que, dependendo das
características do produto, a logística reversa pode se tornar mais ou menos
complexa, devido à incerteza em relação à quantidade, qualidade, tempo,
heterogeneidade, envolvimento e custo das operações
de retorno dos produtos ao fabricante de origem. Nesse sentido, Vier et al.
(2021) destacam cinco fatores importantes que devem ser observados na
organização da gestão da logística reversa:
a)
fatores econômicos: referem-se à capacidade
de recapturar o valor financeiro da matéria-prima remanufaturada ou reciclada,
ao retornar ao ciclo produtivo original ou secundário por meio da
comercialização, viabilizando o retorno econômico aos agentes da cadeia
reversa;
b)
fatores tecnológicos: relacionam-se à
identificação e à aplicação de tecnologias adequadas para o tratamento
econômico dos resíduos, desde o descarte até sua reintegração ao ciclo
produtivo; na ausência de viabilidade de revalorização, os resíduos podem ser
transformados em fonte de energia ou destinados a
locais ambientalmente seguros, como incineração ou
aterros sanitários;
c)
fatores logísticos: envolvem a estruturação
de sistemas de transportes,
localização e organização entre os diversos elos da cadeia reversa, abrangendo atividades de coleta, classificação, segregação
e transporte de bens pós-consumo aos diferentes locais destinados para
remanufatura, desmanche, desmontagem ou sucata quando destinado à indústria de
transformação;
d)
fatores ecológicos:
motivados pela sensibilidade ecológica ou pela sustentabilidade
ambiental, incluindo iniciativas governamentais, pressões sociais,
seletividade ecológica no consumo, responsabilidade ambiental das empresas,
promoção da educação ambiental e incentivos à melhoria das condições de retorno dos produtos ao ciclo produtivo; também
envolvem a prevenção de destinações inadequadas, como o descarte em lixões,
rios e terrenos baldios, que resultam em poluição ambiental;
e)
fatores legais: referem-se ao
cumprimento de leis e regulamentações ambientais, à
redução de custos governamentais e atender leis de proteção ao
consumidor final; incluem, ainda, o desembaraço final dos resíduos, fazendo uso da
disposição final segura, por meio de incineração ou aterro sanitário (meios controlados que não danificam o meio ambiente e que não atingem
a sociedade, onde os resíduos são dispostos com os devidos cuidados para gerar
energia, no caso de os aterros não contaminarem o lençol freático).
A partir desses fatores, observa-se que a gestão da logística reversa demanda não apenas diretrizes
estratégicas, mas também a estruturação de sistemas logísticos eficientes. As empresas precisam, cada vez
mais, de canais de distribuição rápidos e eficazes, com agilidade de entregas,
o que se configura como um dos fatores decisivos na
escolha do consumidor final. O desenvolvimento desses canais de apoio pode
contribuir para o alcance desses objetivos, os quais podem ser viabilizados por
meio da avaliação dos resíduos gerados no processo produtivo e da sua destinação final adequada (Abdulrahman; Gunasekaran;
Subramanian, 2014).
Considerando a complexidade operacional da logística
reversa, especialmente em cadeias produtivas marcadas por dispersão
pós-consumo, heterogeneidade de materiais e necessidade de coordenação entre múltiplos atores, torna-se importante
examinar recursos tecnológicos capazes de qualificar a gestão desse fluxo.
Nessa perspectiva, a internet das coisas desponta como uma alternativa
promissora, ao possibilitar conectividade, geração de dados em tempo real, rastreabilidade e suporte ao processo decisório,
aspectos que podem contribuir para viabilizar e aprimorar práticas de logística
reversa.
2.1 Internet das coisas (IoT)
Na sociedade atual, na qual estar conectado é quase
uma necessidade, a IoT se torna fundamental. Ela proporciona o elo entre tudo
que está conectado globalmente (Aeknarajindawat, 2019). Por meio dessa
tecnologia, a distância física é reduzida, a velocidade da informação é
ampliada e as atualizações ocorrem em tempo real. Além disso, a competitividade
torna-se mais intensa e a gestão empresarial pode ser realizada em tempo real,
entre outros aspectos relevantes (Ahmed et al., 2021).
A IoT pode ser definida como a interconexão entre objetos,
por meio da internet, realizada com base em sensores, de reduzido tamanho,
embutidos nos referidos objetos, constituindo um ecossistema computacional
onipresente (Ben-Daya; Hassini; Bahroun, 2019). Esse ecossistema possibilita a
geração e o compartilhamento instantâneo de informações para a tomada de
decisão, seja por pessoas ou por máquinas, com o objetivo de solucionar
problemas específicos (Gerami; Sarihi, 2020).
Nesta perspectiva, torna-se necessário destacar que
os dados não são apenas gerados e compartilhados em formato binário ou em
linguagem de máquinas, mas também são analisados e facultam visualização em
formatos compreensíveis e/ou, até mesmo, usando a tecnologia de inteligência
artificial, sugerindo alternativas no processo de tomada de decisão (De Vass; Shee;
Miah, 2018). Dessa forma, os custos referentes ao processo decisório tiveram
uma redução significativa a partir da adoção da IoT (Jiang, 2019; Pal; Yasar,
2020). A geração de dados por meio de sensores incorporados em dispositivos
contribui para a redução de riscos às pessoas e ao meio ambiente, além de
potencializar a qualidade de vida e a sustentabilidade (Ahmed et al.,
2021).
A IoT pode oferecer diversas oportunidades, mas
também apresenta desafios, uma vez que questões de segurança são relevantes no contexto
atual das organizações. Autores como Lu, Papagiannidis e Alamanos (2018)
conceituam a internet das coisas como novo paradigma tecnológico que visa
conectar qualquer coisa e qualquer pessoa a qualquer momento e em qualquer
lugar, dando origem a novas aplicações e serviços inovadores. Ao fazê-lo, essa
tecnologia oferece uma série de oportunidades e desafios que os usuários e
organizações precisam enfrentar.
Já Roblek, Mesko e Krapez (2016, p.3) afirmam que a
“IoT representa um conceito fundamental na integração de todos os dispositivos
inteligentes que fazem parte de grandes projetos inteligentes”. Silva et al. (2017, p.4) complementam
ao afirmar que a “IoT viabiliza a transformação dos equipamentos da fábrica em
sistemas ciber-físicos – CPS (Cyber-Physical Systems)”, ou seja, para
viabilizar a Indústria 4.0 (I4.0) é necessário infraestrutura adequada que suporte
a IoT, caso contrário, haverá dificuldades em sua implementação. Com a evolução
das tecnologias, através da IoT, cada vez mais dados são gerados dando origem
ao big data. Essa capacidade de converter dados em informações
relevantes, de forma ágil, e de apoiar a tomada de decisão nos contextos
comercial e operacional pode gerar vantagens competitivas em relação aos
concorrentes.
Ao se observar a logística reversa como um processo
que envolve coleta, retorno, triagem, reaproveitamento e destinação adequada de
produtos e materiais, verifica-se que sua operacionalização depende não apenas
de infraestrutura física, mas também de capacidade informacional capaz de
coordenar fluxos dispersos e incertos. Nesse ponto, a IoT pode contribuir ao
ampliar a conectividade entre objetos, sistemas e agentes organizacionais,
favorecendo a geração e o compartilhamento de dados em tempo real, o que tende
a qualificar o monitoramento e o controle das operações reversas (Liu; Gao,
2014; De Vass; Shee; Miah, 2018; Ben-Daya; Hassini; Bahroun, 2019). Em síntese,
a IoT oferece suporte para reduzir parte das incertezas que tornam a logística
reversa mais complexa, especialmente no que se refere à rastreabilidade do
retorno e à visibilidade dos fluxos ao longo da cadeia.
Essa relação torna-se especialmente relevante em
cadeias produtivas nas quais o pós-consumo é marcado por dispersão geográfica,
heterogeneidade de materiais e baixa previsibilidade de retorno, como ocorre em
diversos bens de consumo. Estudos sobre logística reversa indicam que fatores
como custo, tempo, qualidade do material retornado e dificuldade de coordenação
entre os elos da cadeia constituem entraves recorrentes à sua implementação
(Abdulrahman; Gunasekaran; Subramanian, 2014; Bouzon; Govindan; Rodriguez,
2018; Vier et al., 2021). Nesse contexto, a IoT pode atuar como
mecanismo de integração informacional, ao permitir identificar, registrar,
localizar e acompanhar produtos, resíduos e embalagens, além de apoiar decisões
relativas à coleta, transporte, separação e destinação, ampliando a eficiência
operacional e a capacidade de resposta das organizações (Ahmed et al.,
2021; Gerami; Sarihi, 2020; Pal; Yasar, 2020).
Entretanto, a simples disponibilidade tecnológica
não assegura a viabilização da logística reversa. Conforme sugerem os estudos
sobre IoT e cadeias de suprimentos, os benefícios da conectividade dependem de
condições organizacionais e estratégicas, como a existência de infraestrutura
adequada, a integração entre sistemas, a capacidade analítica e o alinhamento
entre objetivos econômicos e ambientais (Jiang, 2019; Lu, Papagiannidis;
Alamanos, 2018; Ahmed et al., 2021). Assim, mais do que uma solução
isolada, a IoT pode ser compreendida como um recurso habilitador, cuja
contribuição para a logística reversa decorre de sua articulação com processos,
rotinas e decisões organizacionais orientadas à sustentabilidade. Essa
compreensão permite aproximar, de forma mais consistente, os dois eixos
teóricos deste estudo: a necessidade de operacionalizar fluxos reversos e o
potencial das tecnologias conectadas para apoiar essa operacionalização.
3 METODOLOGIA
O objetivo da pesquisa, de analisar as possíveis
contribuições da IoT para operacionalizar a logística reversa em uma das
maiores indústrias de calçados do Brasil, orientou a concepção do desenho
metodológico, bem como dos procedimentos de coleta e análise de dados empíricos.
Considerando que o alcance desse objetivo exige a compreensão do ambiente
organizacional no qual os processos operacionais são concebidos e
implementados, optou-se pelo estudo de caso único em uma indústria de calçados
de grande porte, com abordagem qualitativa, por se mostrar mais adequado (Yin,
2015; Gil, 2008).
Em alinhamento com a escolha da estratégia de
estudo de caso, para a coleta de dados empíricos optou-se por entrevistas em
profundidade, levantamento documental a partir de registros eletrônicos da
organização e observação sistemática não participante. Os dados empíricos
obtidos foram submetidos à análise de conteúdo, considerada adequada para a
identificação de evidências que subsidiam a discussão dos resultados à luz da
literatura revisada. Tais decisões metodológicas encontram respaldo na
literatura científica que aborda os procedimentos mencionados (Bardin, 2011).
A empresa participante deste estudo de caso atua no
setor calçadista do estado do Rio Grande do Sul e possui onze filiais e oito
marcas, as quais oferecem produtos que combinam qualidade, conforto e moda para
diferentes estilos de consumo. Destaca-se por sua capacidade de inovação e pela
adoção de práticas de gestão eficazes, sendo líder em seu segmento e uma das
maiores fabricantes brasileiras de calçados, com presença em mais de 95 países,
além de atuação em todo o território nacional. Para efeitos deste estudo, será
denominada empresa Alfa.
Para a realização da pesquisa, foram selecionadas
três filiais da empresa Alfa, considerando que representam distintos perfis de produto
e de processo fabril, o que favorece a compreensão de variações internas
relevantes para o exame da aplicabilidade da IoT em diferentes contextos
operacionais de uma mesma organização. Foram incluídas, especificamente, a
filial 1, responsável pela fabricação de sandálias femininas; a filial 3,
dedicada à produção de tênis infantis masculinos; e a filial 16, voltada à
fabricação de sapatilhas femininas injetadas.
As entrevistas foram realizadas com funcionários
dessas filiais e com o Gerente Jurídico e de Processos de Qualidade da empresa
Alfa. Também participou das entrevistas o CEO da empresa de reciclagem
responsável pelo processamento dos resíduos gerados pela empresa Alfa. Nove
entrevistas tiveram seus áudios gravados e transcritos na íntegra, sendo realizadas
via ligação telefônica, com uso do aplicativo Whatsapp; duas foram respondidas
no formato de questionário, ou seja, dois respondentes optaram por digitar suas
respostas. Já a entrevista com o CEO da empresa de reciclagem foi realizada
presencialmente, com áudio gravado e posteriormente transcrito.
Entre os onze entrevistados, cinco eram mulheres e
seis homens, com idades variando entre 25 e 54 anos. A qualificação dos
entrevistados, como a formação acadêmica e o cargo atual estão apresentados no Quadro
2.
Os entrevistados foram identificados neste estudo
pelas siglas E1 ao E11.
Quadro 2 – Formação acadêmica e cargo atual dos entrevistados
|
Respondente/ Unidade |
Formação acadêmica |
Cargo atual |
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E1 – Filial 16 |
Gestão Financeira |
Supervisora
Administrativa |
|
E2 – Filial 1 |
Gestão de Processos
Gerenciais |
Supervisora
Administrativa |
|
E3 – Filial 3 |
Engenharia de
Produção |
Gerente Industrial |
|
E4 – Filial 3 |
Administração de
Empresas |
Supervisora
Administrativa |
|
E5 – Filial 1 |
Publicidade e
Propaganda |
Designer de calçado |
|
E6 – Filial 1 |
Administração de
Empresas |
Supervisora
Administrativa |
|
E7 – Filial 16 |
Design de Produto |
Designer |
|
E8 – Filial 3 |
Técnico em Design de Calçados |
Designer |
|
E9 - Matriz |
Gestão de Processos e
Gestão da Qualidade |
Gerente de Processos
e Qualidade |
|
E10 - Matriz |
Engenheiro Mecânico e
Mestre em Engenharia Generalista |
Estagiário |
|
E11 - Fornecedor |
Economia com Ênfase
em Projetos e Psicologia Empresarial |
Empresário e CEO da
empresa |
Em relação ao tempo de experiência total dos
colaboradores no mercado de trabalho, apenas um deles está com menos de um ano,
quatro colaboradores possuem até dez anos de trabalho e os demais possuem mais
tempo, chegando a 20, 35 e até 42 anos de tempo total de trabalho. Quanto ao
tempo em que atuam na empresa Alfa, dois entrevistados atuam a menos de um ano,
seis colaboradores há dez anos, enquanto os demais acumulam uma média de
quatorze anos de experiência na empresa.
As
transcrições foram submetidas à validação dos entrevistados. O processo de
coleta de dados empíricos, bem como sua análise ocorreu ao longo do mês de
abril e maio de 2023.
A
análise de conteúdo foi conduzida com base em Bardin (2011), em três etapas:
(i) pré-análise, com leitura flutuante das transcrições, dos registros
documentais e das notas de observação; (ii) exploração do material, por meio de
codificação temática das evidências relacionadas à operacionalização da
logística reversa com apoio da IoT; e (iii) tratamento e interpretação, com
agrupamento dos códigos em categorias analíticas e confronto com a literatura.
As
categorias analíticas foram definidas a partir da articulação entre literatura
e evidências empíricas. Após a pré-análise e a codificação temática das
entrevistas, documentos e registros de observação, os códigos foram agrupados
em quatro categorias: (i) engajamento do consumidor e ativação do fluxo
reverso; (ii) rastreabilidade, integração de dados e suporte ao processo
decisório; (iii) coordenação logística, triagem e destinação de resíduos; e
(iv) condicionantes para adoção da IoT na logística reversa. Essas categorias
orientaram a organização e a interpretação dos resultados.
A
credibilidade foi buscada por meio da triangulação de dados, envolvendo
entrevistas, documentos organizacionais e observação não participante, além da
validação das transcrições pelos respondentes. A consistência interpretativa
foi reforçada pelo confronto entre diferentes fontes de evidência, bem como
entre evidências convergentes e divergentes. A saturação teórica foi
considerada alcançada quando as entrevistas adicionais passaram a reiterar
percepções já identificadas nas categorias em construção, sem acrescentar novos
elementos substantivos sobre as contribuições e limites da IoT para a logística
reversa.
4 RESULTADOS
Considerando a diversidade das evidências obtidas
por meio de entrevistas, levantamento documental e observação sistemática não participante,
os resultados foram organizados nas quatro categorias analíticas apresentadas a
seguir. Essa organização permitiu sistematizar os achados empíricos e
evidenciar, de forma mais analítica, como a IoT pode contribuir para a
viabilização da logística reversa no contexto investigado.
4.1 IoT para engajamento do consumidor e ativação
do fluxo reverso
Uma primeira frente de contribuição da IoT
evidenciada no caso analisado refere-se ao engajamento do consumidor final e à
ativação do fluxo reverso. Os entrevistados E2, E3 e E4 destacaram que, antes
mesmo da estruturação operacional do retorno, é necessário ampliar a
conscientização tanto da empresa quanto dos consumidores, de modo que, ao final
da vida útil do produto, o calçado possa ser devolvido à empresa de origem.
Nesse sentido, os entrevistados sugeriram campanhas específicas apoiadas por
recursos digitais, bem como a criação de uma página na internet por meio da
qual o cliente pudesse sinalizar a devolução do produto e receber orientações
sobre os procedimentos de retorno. Também foi mencionada a possibilidade de
disponibilizar pontos de entrega nas próprias lojas, favorecendo o fluxo
reverso a partir do pós-consumo. Esse resultado converge com Schreiber, Sander
e Vier (2023), ao indicarem que a ampliação da conscientização social fortalece
a dimensão ambiental da logística reversa, e com Vier et al. (2021), ao destacarem a relevância do retorno adequado de
produtos pós-consumo para a gestão ambiental no setor calçadista.
Essa percepção também apareceu na fala do
entrevistado E11, para quem a internet das coisas poderia contribuir para
informar e conscientizar as pessoas sobre o que fazer com o calçado
pós-consumo. Assim, no caso investigado, a IoT não aparece apenas como um
recurso técnico voltado ao monitoramento, mas também como um meio de conexão
entre empresa, varejo e consumidor final. Tal interpretação encontra respaldo
em Ben-Daya, Hassini e Bahroun (2019) e De Vass, Shee e Miah (2018), para os
quais a IoT amplia a conectividade entre objetos, sistemas e agentes,
favorecendo a circulação de informações em tempo real e apoiando a coordenação
de processos logísticos mais complexos.
4.2 IoT para rastreabilidade, integração de dados e
suporte ao processo decisório
A segunda categoria analítica identificada diz
respeito ao uso da IoT para ampliar a rastreabilidade, a integração de dados e
o suporte ao processo decisório relacionado à logística reversa. O entrevistado
E6 sugeriu a importância de quantificar e acompanhar o volume de itens
devolvidos, conforme o tipo de evento, como devolução por defeito, insatisfação
do cliente ou erros na gestão de estoques. Na percepção dele, a articulação
dessas informações permitiria identificar oportunidades de melhoria de processos.
Esse resultado aproxima-se do que Schreiber (2022) assinala ao discutir o
potencial das tecnologias da Indústria 4.0 para redução de custos ambientais e
qualificação da gestão por meio da geração e uso estratégico de informações.
Na mesma direção, os entrevistados E5, E7 e E8
destacaram a utilização da plataforma Power BI, já empregada pela empresa Alfa,
como ferramenta que reúne informações dos produtos desde a fabricação até a
venda. Para eles, a criação de filtros ou campos específicos poderia contribuir
para acompanhar a movimentação dos produtos e apoiar seu retorno no contexto da
logística reversa. Os dados indicam, portanto, que a IoT, articulada a sistemas
já existentes, pode fortalecer a visibilidade do fluxo reverso e apoiar
decisões relacionadas ao reaproveitamento e à gestão das devoluções. Essa
interpretação dialoga com Risso, Ganga e Godinho Filho (2019), ao apontarem
aplicações das tecnologias da Indústria 4.0 na economia circular, e com Pal e
Yasar (2020), ao enfatizarem o potencial da conectividade e da integração de
dados para aprimorar o gerenciamento de cadeias produtivas.
O levantamento documental também reforçou essa
dimensão. O acesso a registros internos da organização evidenciou que os
responsáveis por atividades operacionais abordam, de forma recorrente, a adoção
de tecnologias da Indústria 4.0, bem como a possibilidade de ampliar seus
benefícios para dimensões associadas à sustentabilidade ambiental, social e
econômica. Esse movimento é coerente com o argumento de Augusto (2020), segundo
o qual a sustentabilidade vem exigindo maior articulação entre exigências
ambientais e práticas organizacionais, e com Ahmed et al. (2021), que destacam o papel da IoT na ampliação da
visibilidade e na integração das operações em cadeias de suprimentos.
4.3 IoT para coordenação logística, triagem e
destinação de resíduos
A terceira categoria refere-se às contribuições da
IoT para a coordenação logística do fluxo reverso, incluindo transporte,
triagem e destinação de resíduos. Para os entrevistados E9 e E10, a
implementação da IoT dependeria dos procedimentos empregados para a logística e
a reciclagem do material. Segundo os entrevistados, as máquinas equipadas com
sensores poderiam transmitir informações em rede, facilitando decisões e
controle dos processos. Contudo, devido às limitações práticas observadas na
empresa, o uso dessa tecnologia tenderia a concentrar-se em centrais de
distribuição unificadas ou em fábricas de reciclagem centralizadas. Essa
percepção se aproxima de Wallauer, Martins e Schreiber (2016), ao tratarem da
logística reversa no contexto calçadista, e de Risso, Ganga e Godinho Filho
(2019), ao assinalarem que a incorporação de dispositivos eletrônicos e
sensores à infraestrutura produtiva viabiliza ações mais automatizadas no fluxo
reverso.
Na percepção do entrevistado E1, a IoT poderia
contribuir para viabilizar o transporte do produto do consumidor final até a
indústria, por meio de aplicativos, programas de otimização de coleta e
definição de destino. Já o entrevistado E11 destacou o potencial dessa
tecnologia para apoiar a separação de resíduos sólidos. Em conjunto, esses
dados sugerem que a contribuição da IoT não se limita à geração de dados, mas
também abrange a coordenação operacional do retorno, da triagem e da destinação
dos materiais. Vier et al. (2021) enfatizam a importância da gestão adequada
dos resíduos no setor calçadista, e Liu e Gao (2014) ressaltam a relevância da
conectividade e do compartilhamento de informações, que favorecem a coordenação
de cadeias logísticas mais complexas.
Além disso, o próprio corpus empírico e a
literatura mobilizada no artigo permitiram reconhecer aplicações da IoT em
atividades como o uso de Radio Frequency Identification, isto é, identificação
por radiofrequência (RFID), a recuperação de materiais, a utilização de
informações para o gerenciamento do fluxo de retorno, a readequação de rotas e
a melhoria da transparência operacional em depósitos. Tais possibilidades
reforçam que a IoT pode contribuir para o aumento da confiabilidade, da
visibilidade e da agilidade nas operações reversas, desde que existam condições
organizacionais e infraestruturais adequadas para sua adoção.
4.4 Condicionantes e limitações para adoção da IoT
na logística reversa
Apesar do reconhecimento das contribuições
potenciais da IoT, os resultados também evidenciaram condicionantes e
limitações à sua adoção no contexto da logística reversa na indústria
calçadista. Segundo os entrevistados, a empresa Alfa avançou na adoção de
tecnologias de conectividade após resultados positivos obtidos em
projetos-piloto implantados em duas unidades da organização, especialmente com o
uso de RFID, manufatura aditiva e IoT. Entretanto, esse movimento foi precedido
por planejamento e pela adoção de técnicas operacionais, como o método Toyota
de produção e a Produção Mais Limpa. Tal evidência está de acordo com Schreiber
(2022) e Ahmed et al. (2021),
ao apontarem que a incorporação de tecnologias da Indústria 4.0 depende de
preparação organizacional prévia, estrutura adequada e alinhamento com
processos já estabilizados.
A observação sistemática não participante permitiu
identificar iniciativas da Alfa relacionadas à logística reversa de embalagens,
embora ainda marcadas por falhas desde o recebimento até o acondicionamento e
reaproveitamento. Essa percepção foi confirmada pelos entrevistados, que
associaram tais limitações à hierarquização de prioridades na empresa. Conforme
relataram, a prioridade da Alfa, assim como de outras indústrias calçadistas,
permanece centrada no produto, na manufatura e na logística out, enquanto a
dimensão ambiental e, mais especificamente, a logística reversa, ocupam posição
secundária. Nesse sentido, Schreiber e Wallauer (2023) indicam que a adoção de
tecnologias no setor calçadista tende a ser orientada prioritariamente por
ganhos produtivos e competitivos, e não necessariamente por objetivos
ambientais. Abdulrahman, Gunasekaran e Subramanian (2014), Bouzon, Govindan e
Rodriguez (2018) e Vier et al. (2021) apontam o custo, a complexidade operacional
e a baixa priorização estratégica como barreiras recorrentes à implementação da
logística reversa.
De modo geral, os resultados evidenciam que a
indústria de calçados investigada reconhece a relevância da logística reversa e
percebe vantagens no uso da IoT, especialmente para integrar informações,
apoiar decisões, facilitar a coordenação logística e ampliar a interação com o
consumidor final. Entretanto, o caso também mostra que a adoção da IoT tende a
ser mais viável quando se apoia em sistemas computacionais já existentes, em
ajustes incrementais e em estruturas logísticas mais centralizadas, do que em
investimentos amplos e imediatos em novas infraestruturas tecnológicas. Nesse
sentido, os resultados reforçam que a contribuição da IoT para a logística
reversa no setor calçadista está condicionada não apenas à disponibilidade
tecnológica, mas também à prioridade estratégica atribuída ao tema e à
percepção de retorno organizacional dos investimentos realizados.
5 Discussão
Os resultados obtidos são discutidos, a seguir, à
luz da literatura, com ênfase nas contribuições e nos condicionantes da IoT
para a logística reversa na indústria calçadista. O quadro 3 apresenta as
principais evidências empíricas de acordo com cada categoria analítica.
Quadro
3 – Síntese das evidências empíricas por categoria analítica
|
Categoria
analítica |
Fonte |
Evidências
empíricas |
Base teórica |
|
IoT para
engajamento do consumidor e ativação do fluxo reverso |
Entrevistas E2,
E3 e E4 + registros setor |
Uso da IoT para
campanhas de conscientização do consumidor final, com criação de página na
internet para que o cliente sinalize a devolução do produto e receba
orientações sobre como proceder no retorno do calçado à empresa. |
Schreiber,
Sander e Vier (2023) |
|
IoT para
engajamento do consumidor e ativação do fluxo reverso |
Entrevista E11 |
A IoT poderia
contribuir na informação e conscientização para que as pessoas saibam o que
fazer e como destinar adequadamente o calçado pós-consumo. |
Vier et al. (2021) |
|
IoT para
rastreabilidade, integração de dados e suporte ao processo decisório |
Entrevista E6 +
registros setor de produção |
Uso da IoT para
identificar oportunidades de melhoria dos processos, com base na
quantificação e classificação do volume de devoluções conforme o tipo de
ocorrência, como defeito, insatisfação do cliente ou erros na gestão dos
estoques. |
Schreiber (2022) |
|
IoT para
rastreabilidade, integração de dados e suporte ao processo decisório |
Entrevistas E5,
E7 e E8 + registros se |
Uso da
plataforma Power BI, já empregada pela empresa, para reunir e filtrar
informações sobre os produtos desde a fabricação até a venda, favorecendo o
acompanhamento da movimentação e do retorno dos itens no contexto da
logística reversa. |
Risso, Ganga e
Godinho Filho (2019); Pal e Yasar (2020) |
|
IoT para
coordenação logística, triagem e destinação de resíduos |
Entrevistas E9 e
E10 |
No caso da
empresa Alfa, a implementação da IoT para logística reversa não seria de
fácil operacionalização em toda a cadeia, mostrando-se mais viável em
centrais de distribuição unificadas ou em fábricas de reciclagem
centralizadas. |
Risso, Ganga e
Godinho Filho (2019) |
|
IoT para
coordenação logística, triagem e destinação de resíduos |
Entrevista E1 +
registros setor de produção |
A IoT
contribuiria para viabilizar o transporte do produto do consumidor final até
a indústria, com apoio de aplicativos, programas de otimização da coleta e
definição do destino dos calçados devolvidos. |
Schreiber (2022) |
|
Condicionantes e
limitações para adoção da IoT na logística reversa |
Observação
sistemática não participante + entrevistas + registros internos |
A adoção da IoT
para a logística reversa é condicionada pela prioridade atribuída ao produto,
à manufatura e à logística direta, bem como pelo elevado investimento
necessário para implementação e manutenção das soluções tecnológicas. |
Abdulrahman, Gunasekaran e Subramanian (2014); Bouzon, Govindan e
Rodriguez (2018); Vier et al. (2021); Schreiber e Wallauer (2023) |
A literatura sobre IoT sustenta que a conectividade entre objetos, sistemas e agentes amplia a circulação de informações em tempo real e tende a favorecer a coordenação de processos logísticos mais complexos (Ben-Daya; Hassini; Bahroun, 2019; De Vass; Shee; Miah, 2018). No caso investigado, essa proposição foi parcialmente confirmada, a principal contribuição identificada não está, em um primeiro momento, na automação intensiva do fluxo reverso, mas na criação de mecanismos de ativação desse fluxo por meio do engajamento do consumidor. As evidências sobre campanhas digitais, páginas para sinalização de devolução e orientação sobre destinação mostram que, na indústria calçadista, a conectividade assume uma função menos fabril e mais relacional, aproximando consumidor, varejo e empresa. Assim, enquanto a literatura enfatiza a IoT como infraestrutura de monitoramento e integração, o caso revela que, em setores marcados por descarte difuso e baixa imposição regulatória, sua contribuição inicial tende a ocorrer no estímulo ao retorno do produto, o que configura uma especificidade relevante do contexto calçadista.
Os estudos sobre logística reversa e tecnologias da Indústria 4.0 também indicam que a IoT pode ampliar a rastreabilidade, a visibilidade dos fluxos e o suporte ao processo decisório, reduzindo assimetrias informacionais e qualificando a gestão das operações reversas (Ahmed et al., 2021; Pal; Yasar, 2020; Risso; Ganga; Godinho Filho, 2019). O caso analisado corrobora essa perspectiva, ao evidenciar o uso potencial de sistemas já existentes, como o Power BI, bem como a quantificação e a classificação das devoluções como base para identificar oportunidades de melhoria. Entretanto, o avanço empírico do estudo está em mostrar que essa contribuição não se dá, necessariamente, por meio de soluções tecnológicas inéditas ou altamente sofisticadas. Ao contrário, o caso revela que, na indústria calçadista, a IoT parece mais viável quando acoplada a estruturas informacionais já disponíveis e orientada à integração incremental de dados. Desse modo, o estudo não apenas confirma a literatura quanto ao potencial informacional da IoT, mas acrescenta que, nesse setor, a viabilidade tecnológica está associada à capacidade de reaproveitamento de infraestruturas existentes, e não à implantação imediata de sistemas complexos em toda a cadeia.
Por outro lado, a literatura sobre logística reversa aponta que custo, complexidade operacional, heterogeneidade dos fluxos de retorno e baixa priorização estratégica constituem barreiras recorrentes à sua implementação (Abdulrahman; Gunasekaran; Subramanian, 2014; Bouzon; Govindan; Rodriguez, 2018; Vier et al., 2021). O caso confirma esses obstáculos, mas também revela uma contradição relevante: embora a organização reconheça a importância ambiental e reputacional da logística reversa, sua prioridade permanece concentrada no produto, na manufatura e na logística direta. Desse modo, no setor calçadista, a relevância simbólica da sustentabilidade não se converte automaticamente em prioridade operacional ou em investimento correspondente. Além disso, o caso mostra que a adoção da IoT tende a concentrar-se em pontos mais centralizados e controláveis da cadeia, como centros de distribuição e operações de reciclagem, em detrimento de sua aplicação ao fluxo reverso como um todo. Essa constatação explicita uma especificidade do setor, caracterizada pela combinação entre grande volume pós-consumo, baixa previsibilidade de retorno, dispersão do descarte e fraca pressão regulatória, que torna a logística reversa reconhecida como necessária, mas ainda tratada como secundária, limitando a conversão do potencial tecnológico da IoT em prática operacional efetiva.
6 CONCLUSÃO
Este estudo analisou as possíveis contribuições da IoT para a operacionalização da logística reversa em uma das maiores indústrias de calçados do Brasil. Os resultados indicam que, no caso investigado, a IoT pode contribuir especialmente para o engajamento do consumidor, a rastreabilidade do fluxo reverso, a integração de dados, o suporte ao processo decisório e a coordenação de operações de retorno, triagem e destinação. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou que a adoção dessa tecnologia permanece condicionada por restrições de investimento, pela necessidade de infraestrutura organizacional prévia e pela baixa prioridade estratégica ainda atribuída à logística reversa no setor.
Como contribuição teórica, o estudo amplia a literatura de logística reversa ao mostrar que, em um setor de baixa pressão regulatória e com descarte pós-consumo disperso, como o calçadista, a IoT tende a gerar valor inicialmente mais pela coordenação informacional do fluxo reverso do que pela automação integral de suas operações. A pesquisa também contribui para os estudos sobre Indústria 4.0 e sustentabilidade ao mostrar que o potencial ambiental da IoT depende de sua articulação com rotinas organizacionais, estruturas logísticas e decisões gerenciais, e não apenas da simples disponibilidade tecnológica.
Em termos práticos, os resultados sugerem que a adoção da IoT para a logística reversa tende a ser mais viável quando baseada em soluções incrementais e em estruturas já existentes, como sistemas corporativos, plataformas digitais de interação com consumidores e operações logísticas centralizadas. Para gestores industriais, isso implica reconhecer que avanços na logística reversa podem ocorrer por meio da integração progressiva de dados, do fortalecimento dos canais de devolução e do aprimoramento do monitoramento do fluxo reverso, sem a necessidade de investimentos imediatos em infraestruras tecnológicas complexas.
O estudo oferece um insight empírico ao mostrar que, na indústria calçadista, a aplicação da IoT à logística reversa assume configuração própria, marcada pela coexistência entre reconhecimento da relevância ambiental do tema e sua baixa centralidade nas prioridades operacionais da organização. Essa tensão ajuda a explicar por que a IoT é percebida como promissora, mas sua adoção permanece seletiva e concentrada em pontos mais controláveis da cadeia.
Como limitações, destacam-se o desenho de estudo de caso único, a concentração da análise em uma organização de grande porte e a ênfase nas percepções de atores diretamente vinculados ao caso. Além disso, o estudo não mensurou economicamente a adoção da IoT na logística reversa nem incorporou consumidores finais como fonte empírica, embora seu papel tenha emergido como relevante nos resultados.
Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos comparativos entre empresas calçadistas com diferentes portes e níveis de digitalização, bem como investigações sobre a viabilidade econômica da adoção da IoT na logística reversa, o papel do consumidor na ativação do fluxo reverso e os efeitos de diferentes arranjos de governança sobre a coordenação entre indústria, varejo e operadores de reciclagem.
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